Paisagens imaginárias reais

Noémie Goudal é uma fotógrafa francesa baseada em Londres que constrói paisagens imaginárias e as fotografa. Como assim? São diferentes séries que trabalham o mesmo conceito de real e imaginário e quais os limites entre eles. Tudo parece ser extremamente real em seus cliques. E algumas imagens são, como as fotos dos bunkers abandonados nas praias francesas após a segunda guerra mundial. Outras são construções feitas em papelão, que ela dobra, cola e monta. Outras ainda, são construções digitais de várias imagens que formam um único complexo arquitetônico. Em última instância, ela quer desafiar o espectador a procurar onde está a realidade: onde ela para e onde a construção começa.

 

Espero que minhas fotos ofereçam um espaço em que possamos falar sobre a paisagem e sobre a relação entre ela e o homem. – Noémie Goudal

 

Tower I, Noémie Goudal, 2015

 

Noémie engana o senso de percepção do espectador e sugere edifícios ou paisagens dentro de outras paisagens. Camadas infinitas para aos poucos irmos vislumbrando nosso próprio imaginário e perspectiva. Ficamos entre a alucinação e o fato, numa longa dúvida. E entendendo, ou sem entender a construção da foto, nos perdemos nessa imagem onírica e passamos mais tempo nela.

 

A fotografia é um jogo. Um título, um enquadramento, tudo pode enganar. Se encontrarmos o ângulo certo, o espectador é sempre confundido. – Noémie Goudal

 

Mas isso seria um problema? Não, pelo contrário, acredito que Noémie coloque como uma solução. O truque fotográfico vem para aguçar os reflexos, os pensamentos, os sentimentos e os questionamentos. Diferente do “instante decisivo” de Cartier-Bresson, Noémie cria uma instalação fotográfica, com diferentes camadas na imagem, que por isso se alonga. Suas fotografias são como um palco onde vários momentos se juntam e o espectador pode visitar e revisitar, contando cada vez uma história diferente. Não é um lugar que você captura por um segundo, é um lugar onde você pode ficar.

 

Station I, “Southern Light Stations”, Noémie Goudal, 2015

 

Satellite II, 2013, Noémie Goudal

 

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Zhang Dali e a geração artística chinesa “fuck off”

Foi pesquisando sobre o artista chinês, Zhang Dali, que eu descobri a expressão geração “fuck off” (geração “foda-se”). Não conhecia essa geração artística, mas já curti. Seriam os artistas e pensadores chineses que vieram após a morte de Mao Zedong. Pessoas que viveram as restrições impostas pelos anos de Mao e que tiveram que lidar com a entrada em uma nova era, contemporânea, cheia de novidades. E que além de tudo ainda tinham que se relacionar com o que existia antes: os inesgotáveis ​​séculos passados ​​de arte tradicional.

 

O final dos anos 80, na China, foi um ponto de virada para a política e a economia. O  regime autoritário neo-comunista que dominou o país e a livre iniciativa desenfreada que veio gerou um impulso precipitado que culminou nos protestos da Praça Tiananmen em 1989. Para os artistas que cresceram com o legado da Revolução Cultural, suas censuras políticas e artísticas opressivas, a nova era veio como a alternativa de novos experimentos na linguagem. Jovens artistas aproveitaram a ocasião para ampliar o horizonte e libertar as amarras.

 

Zhang Dali foi um desses artistas. Nascido na China em 1963, fez sua formação artística em Pequim e em 1989 teve que fugir para Itália. Viveu em Bolonha entre 1989 e 1993. No ocidente teve contato com o grafite e a arte de rua. Foi o pioneiro na China de street art com o codinome de AK-47. Em seus anos de exílio, pode perceber com outro olhar a máquina da propaganda política, e as mudanças bruscas e desumanas que seu país sofreu. Seu trabalho perpassa todas essas questões, sempre preocupado com as vastas mudanças sociais e culturais que ocorreram desde o início das reformas econômicas na década de 80. Sua intenção é documentar essas questões e dialogar com o público e o ambiente. 

 

 

Eu acredito que os seres humanos são o produto de seu ambiente. Estou preocupado com as mudanças em nosso ambiente de vida que foram impostas pelo dinheiro e pelo poder. – Zhang Dali

 

 

Seu projeto em andamento, “Uma segunda história”, mostra a alteração de fotos feitas na China durante a liderança de Mao Zedong para atender às necessidades de propaganda política. Adicionando ou removendo pessoas e elementos de cena, recorrendo inclusive a coloração e retoque, as fotografias foram mudadas para se adequar à agenda de Mao, e representar mais positivamente o regime. Zhang Dali percorreu inúmeros arquivos, em um trabalho insano, para achar os negativos originais e mostrar as alterações implementadas. Toda essa pesquisa revela insights sobre a história chinesa moderna, além das óbvias implicações sobre a veracidade dos meios de comunicação de massa contemporâneos.

 

Comecei esta pesquisa porque estava pensando em como explorar o que não é claramente visível, fiquei me perguntando como entrar na cabeça de outra pessoa – os censores, por exemplo. – Zhang Dali

 

 

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Jogo dos sete erros

Paris ou China?

 

 

 

Qual delas é a verdadeira Torre Eiffel?

 

 

Essa é a brincadeira da série Síndrome de Paris (2017), do fotógrafo François Prost, que viajou para Tianducheng, uma réplica ideal de Paris, nos subúrbios da cidade chinesa de Hangzhou. A construtora Sky City desenvolveu essa cidade há dez anos, projetada a 200 km de Shangai, que compreende uma torre eiffel menor do que a original, uma réplica do jardim de Versalhes e 31 quilômetros quadrados de prédios haussmanianos.

 

Apropriação cultural é um conceito bastante interessante, e muito praticado por todos, sobretudo pelos chineses. A série vai além do humor inicial se indagando justamente sobre os significados desta representação chinesa da capital francesa. Nesse caso fica claro como a réplica é desajeitada, acentuando falhas, imperfeições e uma falta de naturalidade características da apropriação cultural. Além disso, mostra o que os chineses admiram do velho continente europeu: seus monumentos históricos, sua arquitetura antiga, enfim todos os detalhes exagerados de antiga história ocidental. Peculiar, visto que a China é um país de enorme história e tradição antiga.

 

A fotografia também pode ser vista como uma réplica estranha e anti-natural. Aliás durante seus primeiros anos muitos intelectuais acreditavam nessa idéia sobre a mídia fotográfica. O paralelo aqui é interessante. Mais do que um simulacro, a cidade de Tianducheng se torna uma nova realidade, com novos parâmetros, novos significados e novas interpretações.

 

Em sua série Síndrome de Paris, assim como na fotografia em si, estamos diante de um mecanismo em direta relação com a realidade mas ao mesmo tempo em conflito. Tanto a réplica de Paris, quanto a mídia fotográfica, são capazes de apresentar-se como um “outro real”, criando uma dualidade com a origem da imagem e atuando – concomitantemente – como igual, similar e rival. Elas perpassam suas referências e ganham novas aberturas.

 

 

*todas as imagens são tiradas do site de François Prost, as da esquerda são na China e as da direita na França.

 

 

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Por favor não incomodar

Em vez de ficar aqui toda semana “falando” sem parar sobre fotografia, acho importante também o silêncio. Um silêncio como espaço para o leitor usufruir de imagens interessantes, e para as próprias imagens falarem por elas mesmas. Não é sempre necessário textos, explicações e intromissões minhas (nesse caso) para uma imagem se revelar. Muitas vezes o silêncio fará mais do que teorizações alheias.

 

Essa semana não vou incomodar.

 

Bom deleite, e boa conversa. Deixo vocês à sós.

 

 

 

 

 

 

 

 

*Todas as imagens acima são do polonês Wojciech Zamecznik (1923 – 67), artista considerado um dos primeiros a associar a fotografia às artes gráficas.

 

 

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É preciso falar, mesmo que palavras não sejam ditas

Quando o assunto é estupro, palavras podem ser duras ou difíceis. Tanto pelo lado da vítima, quando pelo lado cultural, muitas vezes não achamos força e expressão para falar sobre a agressão sexual. Os sentimentos fortes, os tabus, os clichês nos calam. Ainda bem que aos poucos os movimentos femininos estão acolhendo as histórias, as lembranças, as denúncias, mas bem aos poucos. A opinião pública no geral ainda ameaça e agride.

 

E o problema é mundial, e atinge milhões de mulheres, vítimas de uma história machista. Não há como ficarmos caladas para sempre, somos muitas, pelo mundo. Temos que quebrar o silêncio, gritar em alto e bom som, pois esse silêncio perpetua a cultura do estupro. É difícil, é doído se expor dessa maneira, para olhares julgadores. Mas podemos fazer isso com imagens também.  Nesses momentos a fotografia é uma boa aliada.

 

“Tem coisas que vimos na infância e adolescência que não conseguimos falar. E no momento que traduzimos essas lembranças no trabalho fotográfico, é como se estivéssemos nos liberando de tudo que guardamos calado dentro de nós”. – Thandiwe Msebenzi

 

Thandiwe Msebenzi, 2017

 

Thandiwe Msebenzi, 2017

 

Thandiwe Msebenzi é uma fotógrafa sul africana que depois de sofrer um estupro iniciou uma catarse pessoal se retratando na série “Você não me vê”. Escondida por um jaqueta masculina – símbolo de seu agressor – não vemos a mulher; mas nessa sociedade machista que tentamos denunciar, em que momento vemos essa mulher? Aos poucos, em contato com outras mulheres e outras histórias, Thandiwe começou a retratar a ferida de cada vítima. E com isso a curar. Imagens sutis que falam muito, como a foto das armas que sua avó guardava embaixo da cama para se proteger.

 

Mouna Saboni é uma fotógrafa franco-marroquina que decidiu agir depois de ler um relatório da Anistia Internacional dizendo que 99% das mulheres egípcias foram vítimas de agressão sexual em 2015. Esse fato aberrante, comumente silenciado pela sociedade que não quer lidar e prefere manter tabu, fez Mouna dar voz e rosto a esses números exemplificados pela ONG. Mesclando texto e imagem, Mouna retrata a mulher, vítima, de maneira melancólica e poética, mas com o nítido resultado de uma realidade brutal.

 

“Eu me lembro bem, era uma noite fria de dezembro. 3 homens me surpreenderam quando eu estava entrando no meu carro. Eles eram policiais.”

 

“Eu não me lembro a última vez que eu andei sozinha na rua.”

 

Mouna Saboni, O Medo, Egito, 2015

 

Mouna Saboni, O Medo, Egito, 2015
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