Os mil e um eventos além do Paris Photo: livros, expos e salões

Continuando sobre o tema Paris Photo, que falamos semana passada aqui, gostaria de ressaltar os mil eventos que aconteceram durante a semana da feira.

 

Começo com o evento que ajudei na organização e curadoria, junto com os fotógrafos Glaucia Nogueira e Shinji Nagabe. Fizemos um bate papo sobre a fotografia brasileira e seu lugar no mercado fotográfico, seguido de uma projeção com 14 fotógrafos brasileiros. A mesa, composta por mim, Isabella Prata e Felipe Abreu questionou as aproximações e especificações do mercado fotográfico. Será que existe um olhar brasileiro, ou somos fotógrafos do mundo, independente de nossas origens? E se existe esse olhar, qual seria sua particularidade? A fotografia brasileira ainda é vista como exótico pelo olhar europeu do centro? Como fazer para quebrar essa dicotomia centro/ periferia? E como fazer para não entrar no modismo do mercado que precisa sempre ser propulsado por novidades?

 

E o evento foi possível graças ao Iandé, uma plataforma cultural focada em divulgar, promover e decodificar a fotografia brasileira na França. Aliás, fico muito feliz de anunciar que também estou escrevendo por lá e colaborando para seguirmos com nosso objetivo comum. Ficou claro que ações como essa, de aumentar a visibilidade e legitimidade da fotografia brasileira no exterior, estão ganhando cada vez mais força na França. E que nossos fotógrafos são muito admirados.

 

Shinji Nagabe, Chão, 2016

 

Nossa projeção contou com: Ana Sabiá, Cleo Alves Pinto, Elsa Leydier, Felipe Fittipaldi, Fernanda Frazão, Guilherme Bergamini, Henrique Carneiro, Joel Lopes, Jonas de Barros, Karime Xavier, Mariana Guardani, Shinji Nagabe, Vitor Casemiro e Zé Barretta.

 

Continuando, tivemos a feira de livros de fotografia, Polycopies, que também contou com a participação de brasileiros no stand Havaïna. Em um barco, a 10 minutos do Paris Photo, a pequena feira de editores independentes apresenta trabalhos de todo o mundo. E o que vemos são livros mais ousados e menos ligados a norma. Além disso, é uma inspiração perpassar olhares e questões em todas as línguas, que nos falam e nos aproximam. Por exemplo, a editora alemã Café Lehmitz tinha um livro sobre as publicações femininas contemporâneas. Compilação importante e muito interessante.

 

Seguindo o caminho dos livros de fotografia, a grande sala da escola de belas artes foi tomada pela feira Offprint. Um pouco maior que a feira anterior (a Offprint também acontece em Londres no mês de maio), vemos um enorme apanhado de livros e revistas e uma discussão em torno do crescente aumento do números de impressões. No mesmo bairro, ainda acontece o pequeno festival Photo Saint Germain , que contou com a participação de 36 galerias da região. Destaque para a exposição da Maison de l’Amérique Latine* sobre fotógrafas alemãs que se exilaram na América do Sul. E para o fotógrafo Eric Antoine que trabalha com a antiga técnica fotográfica de colódio húmido. Quebrando com vários paradigmas da fotografia atual, Eric volta no tempo – técnica e psicologicamente – mantendo uma estética e um questionamento contemporâneo.

 

Philippe Calandre, Utopie 2

 

E não acabou!

 

Salon Approche

Finalmente, mais dois eventos que me chamaram a atenção, a Bienal da Imagem Tangível  e o Salão Approche. A bienal quis explorar práticas que tendem a emancipar-se do uso clássico da fotografia. Seja através do suporte, da técnica ou da forma. Em sua primeira edição, ela fez sua exposição principal em um antigo teatro e contou com instalações, vídeos, colagens fotográficas, esculturas… O fotógrafo brasileiro Caio Reisewitz participou com 2 obras. Na mesma pegada, o Salão Approche, em sua segunda edição, também trabalhou o enfoque contemporâneo da mídia fotográfica. Em um belo prédio tradicional parisiense, 14 artistas foram convidados a exporem seus trabalhos: Daniel Shea, Bruno Fontana (que participou dos dois eventos), Maya Rochat, entre outros…

 

*Exposição “Do outro lado”, fotografias de Jeanne Mandello, Hildegard Rosenthal et Grete Stern. Até dia 20.12.18 na Maison de l’Amérique Latine, Paris.

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A incrível jornada de mais um Paris Photo

E mais uma vez, sobrevivemos à loucura da maior feira de fotografia, Paris Photo, e todos os seus eventos paralelos. Foram dias de encontros, trocas, olhares e discussões, sempre em torno da imagem. Mil exposições, palestras, mesas redondas, performances, livros com fotógrafos do mundo todo. Aliás, muitos brasileiros participaram, de diferentes gerações, e os diálogos foram muito importantes e enriquecedores.

 

Neste ano o Paris Photo realçou a presença da mulher e sua representatividade ao longo da história da fotografia. A organização começou escolhendo a fotógrafa norte americana Mickalene Thomas para ilustrar a capa e os cartazes da feira. Além de mulher, Mickalene é negra e trabalha exatamente sobre o feminismo e o lugar da mulher e do corpo negro na imagem. Além disso, um dia inteiro, com o tema “Mulheres, uma exceção?”, foi dedicado a conversas com e sobre mulheres. Entre vários eventos, manifestos foram lidos, discussões sobre identidade e visibilidade foram feitas, além de entrevistas com fotógrafas árabes.

 

La leçon d’amour, 2008, Mickalene Thomas.

 

Para terminar, um percurso imagético, Elles x Paris Photo, foi feito ao longo da feira através de trabalhos femininos. A curadora Fanny Escoulen escolheu uma centena de imagens para traçar o fio de uma história da fotografia sob o prisma do olhar feminino. Uma travessia importante e urgente pelas galerias e editores presentes na feira. Contudo, porém, quando olhamos de perto, o total de trabalhos apresentados na feira por mulheres fotógrafas foi de apenas 21%. Ou seja, um discurso bonito na teoria mas que ainda precisa ser levado mais a sério na prática. Nós não podemos deixar que se resuma apenas como uma questão de “moda do momento”.

 

Paris Photo foi a primeira feira internacional dedicada à fotografia e criada em 1997.

 

Além disso, a outra novidade foi a nova ala erótica da feira, Curiosa, pensada pela curadora Martha Kirszenbaum. No fim da feira, com limite de idade para entrar, 14 galerias expuseram artistas que trabalham com a fotografia sensual. Movimento importante na fotografia do século XX em diante, as imagens desses fotógrafos pensam sobre o corpo e o sexo, desafiando nosso olhar em cima da fantasia e do fetiche. E a seleção artística perpassa gênero, tempo e espaço, com nomes como Daido Moriyama, Robert Mapplethorpe, Antoine D’agata e Jo Ann Callis, Renate Bertlmann e Natalia LL.

 

Amy Friend, Jack’s Cat, 2016

 

Para terminar, gostaria de ressaltar a participação brasileira. Primeiramente, a editora Madalena que esteve mais uma vez presente misturando gerações de fotógrafos. Num diálogo enriquecedor, lançou livros de fotógrafos consagrados como Cássio Vasconcelos e João Farkas e jovens artistas promissores, como Henrique Carneiro e Rodrigo Pinheiro. Além disso, os fotógrafos Caio Reisewitz e Pedro Motta foram apresentados em galerias internacionais. E, finalmente, a galeria Lume, de São Paulo, veio com o status de primeira galeria brasileira a participar da feira. E trouxe o trabalho histórico e político da artista Ana Vitória Mussi. Aliás, um acerto dentro de uma feira com um viés mais estético vintage do que engajado e ativo.

Negativos, 1974-2006, Ana Vitória Mussi

 

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Gordon Matta-Clark, arquitetura e fotografia

Paris está com uma bela exposição do artista Gordon Matta-Clark no Jeu de Paume até dia 23 de setembro de 2018. Matta-Clark foi um artista intenso que fez muita coisa em seu pouco tempo de vida (morreu de cancer aos 35 anos). De sua faculdade de arquitetura, ele levou para sua prática artística todos seus questionamentos de espaço urbano, e suas relações ao humano.

 

Suas origens e seus questionamentos

 

Gordon Matta-Clark, Porões de Paris, 1977

Filho do pintor surrealista chileno, Roberto Matta, Gordon Matta-Clark cresceu na Nova Iorque dos anos 70, quando a cidade passava por inúmeras transformações. Suas imagens são um tanto documentais retratando o abandono de áreas como o Bronx, Walls (1972), e as pichações dos muros americanos, Graffiti (1972-73). Mas ele não faz mero registros, suas fotografias tem um olhar estético apurado e um discurso de denúncia. Matta-Clark está sempre pensando a cidade: suas relíquias e suas ruínas interligadas as suas relações e divergências com os habitantes. Ele quer discutir as aproximações entre história e construção, sociedade e inclusão. É a partir dessas questões que nasce o coletivo Anarquitetura, em conjunto com outros 7 artistas. Eles visavam subverter a arquitetura tradicional e pensar ideias novas de aproveitamento urbano e humano.

 

Gordon Matta-Clark, Walls, 1972

 

Isso é o que temos para oferecer a você na sua melhor forma: confusão guiada por um claro senso de propósito. – Gordon Matta-Clark

 

Em 1977, em Paris, ele cria a série Porões de Paris. Essa obra trabalha com camadas expostas fotográficas e arquitetônicas tentado reunir os diferentes conceitos que perpassam a cidade: suas bases históricas, culturais e ocultas. Indo mais além nessa ideia, Matta-Clark interfere nos prédios e construções. Sua obra Interseção Cônica (1975) é uma abertura em um prédio parisiense que será demolido para revitalização da área do Marais. É uma ação diretamente na arquitetura do prédio e do bairro, de proporções gigantes, que agride e provoca o espectador. É uma fissura entre o passado do prédio e o futuro do antigo bairro, com a construção do Museu de arte contemporânea George Pompidou. É uma conexão entre familiar e político, interno e externo, ruína e relíquia. É também um pensar as relações entre habitantes e população local e melhorias práticas. São inúmeras camadas relacionais que Matta-Clark faz com suas colagens. Mas essas colagens podem não passar de um gesto ou uma imagem.

 

Gordon Matta-Clark, Conical Intersect, 1975, Paris.

 

Gordon Matta-Clark, Conical Intersect, 1975, Paris.

 

 

Alguns paralelos

 

Muitos fotógrafos pensaram e tentaram traduzir em imagem as muitas relações da cidade e seus entornos. No Brasil mesmo, temos alguns fotógrafos contemporâneos que a sua maneira reagem, com imagens, ao caótico da vida urbana. Pela semelhança com a estética de Gordon, fiquei pensando no fotógrafo Bruno Veiga. Já comentamos dele aqui no blog, mas ainda há muito a se falar. Fica para um próximo post!

 

Bruno Veiga, Flashgordon

 

 

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Juventude, liberdade e falta de consciência fotográfica

A fotografia mudou muito depois do sucesso das mídias sociais. Sobretudo com o instagram, inúmeros jovens e movimentos fotográficos – como o #pornfood ou o #pornruin – surgiram e se expandiram graças a força de propaganda desses meios de comunicação.

 

Mais do que a camera digital, o celular e a mídia social democratizaram a fotografia e a tornaram tão popular que quase qualquer um pode captar uma boa foto com tantas opções de câmeras a todos os preços e para todos os gostos e capacidades. Democratizaram também a exposição, com acesso rápido e mundial ao alcance de todos. É uma enorme sensação de liberdade. Isso tem um lado obviamente maravilhoso de acesso à cultura imagética e de voz e visão a muito mais pessoas, mas também causa algumas anomalias, como criar grupos fechados que monologam entre si.

 

Estive mês passado na abertura da exposição Swin at your own Risk do fotógrafo francês Thibault Lévêque na galeria Fisheye, em Paris. Me surpreendi com a uniformidade do público do evento (que em outras aberturas era mais heterogêneo): jovens, tatuados, fashion, elegantes – o que há de mais trendy. Me surpreendi também como artista e público se pareciam a ponto de se replicarem.

 

Thibault Lévêque

 

Thibault faz parte de um grupo de fotógrafos iniciantes franceses que conseguiu traduzir os modismos e expectativas dessa nova geração fotográfica “instagram”. Jovens, dinâmicos, com imagens simples, cotidianas, de fundo natural, onde todos podem se encontrar e se reconhecer, Thibault Lévêque, Théo Gosselin e Sidi Omar Alami, entre outros, se assemelham do vasto público que digere suas fotos cotidianamente através de curtidas e comentários. Com essa plataforma global, que a nova geração sabe usar tão bem, ganharam livros, exposições, comandas e espaço nas mídias impressas. Mas passando de uma conta instagram para outra, o que vemos são poucas diferenças entre os fotógrafos: temos sempre a mesma luz, a mesma busca por uma sensação de liberdade, de saúde e de beleza fácil demais.

 

Thibault Lévêque

São imagens de amigos, namoradas, viagens, detalhes de uma vida glamurosa e invejável, de um ideal de juventude e liberdade que mais parece um conto de fadas contemporâneo. Uma vida inatingível para a maioria de seus seguidores, eu diria que quase para os próprios fotógrafos, e por isso mesmo tão seguida nas mídias sociais. Uma fuga, fútil, sem embasamento, um modismo passageiro e bonito que tenta ser diferente e original, mas que não passa de um álbum digital de amigos brancos. Tentam ser apenas felizes, sem consequências, para além do sistema, mas não percebem, ou não querem perceber, que endossam cada modismo consumista do capitalismo selvagem. Mais do que isso, endossam preconceitos e regalias.

Aqui o exemplo é de um grupo de fotógrafos franceses, mas eles podiam ser americanos ou brasileiros, existe esse mesmo tipo de grupo, com os mesmos preceitos e ideais que se espalham por toda parte.

 

Théo Gosselin

 

Sidi Omar Alami
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