.Depois de uma longa pausa, estamos de volta. Entre projetos mil, férias necessárias e problemas técnicos, foram mais de 5 meses fora do ar. Mas voltamos com a programação habitual, agora quinzenal, de dicas, histórias, imagens e elocubrações.
.Aproveitando o grande evento da última semana em Paris, nada melhor que retomarmos falando do Paris Photo. Maior feira de fotografia, a edição 23 do Paris Photo trouxe 200 galerias para o Grand Palais. Fora toda a programação off que acontece em volta. Além do setor principal, o Paris Photo apresentou mais 4 setores: filmes, curiosa, prismas e fotolivros. Fora as conversas com artistas durante os 4 dias de feira.
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Conversa com a fotógrafa Alice Quaresma
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Uma feira é sempre uma feira, com stands visando imagens já certeiras que possam responder financeiramente ao grande investimento feito. Mas visto o tamanho da feira sempre tem espaço para algumas surpresas. Para a segunda edição do setor curiosa o curador anglo-ganês Osei Bonsu escolheu trabalhos contemporâneos que dialogassem com antigas técnicas fotográficas. O espaço ficou um pouco pequeno para tanta obra, mas tinha muito artista interessante: Elsa Leydier, Andrés Denegri, David Meskhi, Morvarid K., Roman Moriceau, entre outros.
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Nate Lewis, Transparent Memory, 2018, Hand-sculpted paper inkjet print, Fridman Gallery, New York.
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A fotógrafa oficial do convite do Paris Photo 2019 foi a sul africana Zanele Muholi, ativista visual contra a violência da comunidade LGBT. Junto a ela, sua galeria, Stenvenson, trouxe mais algumas fotógrafas sul africanas como Viviane Sassen e Mame-Diarra Niang. Nomes fortes, trabalhos diferentes. Também tivemos a participação da galeria brasileira Lume com as obras “Ramos” de Julio Bittencourt. O stand estava original e saiu dos fotógrafos e trabalhos óbvios, apostando.
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Madame Victoire, 2019, Viviane Sassen. Courtesy of Stevenson
Conversa com a artista francesa radicada no Brasil, Elsa Leydier
Tive a chance de pensar em duas exposições, diametralmente opostas, para a última edição do FotoRio. De um lado uma expo de lambe-lambe, nas ruas do Rio de Janeiro, com imagens de Ratão Diniz sobre os bate bolas. Era o carnaval, a festa e a cor, retomando a cidade que ainda estava vazia por causa da pandemia e chorando sua muitas – demasiadas – mortes.
Curadoria da exposição de lambe-lambe, “As ruas dos bate bolas – fotografias de Ratão Diniz” dentro da programação do “Rio bem na foto“, 2021./ Curator of the urban exhibition “As ruas dos bate bolas – images of Ratão Diniz” during “Rio bem na foto” event, 2021
Há mais de 10 anos, o fotógrafo carioca Ratão Diniz acompanha as turmas de bate-bolas do subúrbio do Rio, em bairros como Campo Grande, Marechal Hermes, Rocha Miranda, Honório Gurgel e Guadalupe. Formado pela Escola de Fotógrafos Populares, Ratão registra manifestações culturais carnavalescas menos mediatizadas, desconstruindo vários pré-conceitos, tabus e clichês, do carnaval da periferia, que tanto são perpassados pela grande imprensa. Independente do bloco, existe o cuidado com a preservação de uma memória e com a importância de múltiplos discursos e olhares. Assim, o olhar sensível do fotógrafo nos guia entre as cores, as máscaras, a alegria e a cultura bateboleira. Aqui o registro da folia é feito de forma democrática com o intuito de redefinir a identidade e fortalecer o pertencimento de todos.
Esse ano de 2021 não teve Carnaval, mas graças a essas imagens os bate-bolas resistem e desfilam nas ruas do Rio.
Do outro lado, “Corpos de Estilo ente Brasil e França”, do fotógrafo francês Julien Spiewak: uma exposição virtual sobre a história, o museu, a vida.
Curator of the virtual exhibition “Style bodies between Brazil and France” during FotoRio 2020 festival
Corps de Style/ Corpos de estilo
Integrando sutilmente o corpo nos cenários de museus ao redor do mundo, o jovem fotógrafo francês Julien Spiewak nos surpreende com um olhar contemporâneo de ambientes históricos. O que pode parecer um jogo de esconde-esconde, brincando com o nosso olhar curioso sobre os detalhes dos corpos nos espaços, se revela um ensaio sutil e profundo. A elegância dos movimentos – dos braços da cadeira e dos modelos, por exemplo – une dois momentos no tempo, dando vida à História. A performance dos corpos nus ajuda o fotógrafo a não capturar apenas um instante fugaz mas a conectar épocas, estilos e momentos históricos.
Ao introduzir a vivacidade do corpo humano, sempre recortado, dentro de antigas salas, carregadas de histórias, muitas vezes rígidas e austeras, Julien causa uma estranheza. Entre a fotografia in situ e a performance, ele produz uma ruptura em nossas mentes através da quebra da referência do museu que nos aproxima. Criamos um vínculo com a arte antiga, o mobiliário barroco e as tapeçarias guardadas. E mais do que isso, nos conectamos a esses objetos, os tornando familiar. Há uma de-sacralizam dos museus e uma abertura para um diálogo entre gerações. Procurando com o nosso olhar onde se dissimula a parte do corpo na imagem, paramos e observamos. De maneira lúdica, o fotógrafo nos faz descobrir ricos detalhes que nos levam a uma interação com a história do museu, das pinturas, assim como com a nossa própria narrativa.
Julien trabalha sua série “Corps de Style” desde 2005, em museus franceses, europeus e brasileiros, e coleções privadas. Suas imagens são cuidadosamente estudadas e pensadas. Existe uma atenção particular voltada para as formas, as matérias e claro, a história de cada museu. Entre a primeira visita e o dia da realização da foto, Julien observou cada curva e símbolo, fotografou tudo e fez sketches das diferentes possibilidades finais de composição. Em seu processo de criação, o artista vai aos poucos encontrando aberturas entre o museu e seu universo particular. E todos os detalhes são válidos, inclusive as legendas que, com um certo humor, catalogam tudo que está presente na imagem, entre obras, mobília e o próprio modelo.
Para sua exposição virtual durante o FotoRio 2020, apresentamos duas salas com imagens de museus do Brasil e da França que dialogam entre si. Assim como uma série de estudos que mostra seu processo criativo. Julien esteve no Brasil de férias em 2015 e fotografou o Museu Imperial, em Petrópolis, e o Museu da República, no Catete. Dois monumentos à História do Brasil que guardam muitas memórias importantes de épocas marcantes da formação do povo brasileiro. De suas imagens da França, mostraremos às de coleções privadas e dos Museus “De la vie Romantique”, “De la Chasse et de la Nature” e “Cognacq-Jay”. Todas as imagens constituem cenários sumptuosos e clássicos, quase delirantes. Os leves detalhes, delicados e graciosos dos corpos de Julien, apesar de estarem praticamente em simbiose com os ambientes, quebram com o delírio de uma época, e nos remetem ao presente.
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I had the chance to think of two diametrically opposed exhibitions for the latest edition of FotoRio. On one side, an urban exhbition in the streets of Rio de Janeiro, with images of Ratão Diniz of the bate bolas (a carnival tradition). It was carnival, party and color, taking back the city that was still empty because of the pandemic and crying its many – too many – deaths.
On the other side, I was the curator of the virtual exhibition “Style bodies between Brazil and France” of french photographer Julien Spiewak about history, museums and life.
Commissaire, avec Glaucia Nogueira du Collectif Iandé, dans l’exposition collective “Há uma só Terra” avec 7 photographes brésiliens qui parlent du thème de l’écologie. L’exposition fût présenté à la “Tinturaria” dans le cadre de la programmation du Festival Diafragma de photographie, Covilhã, Portugal. (mai 2021)
Curator along side Gláucia Nogueira from Collectif Iandé in the collective exhibition about ecology, “Há uma só Terra”, with 7 brazilian photographers. The exhibition was shown at “Tinturaria” during the Diafragma Festival, Covilhã, Portugal. (may 2021)
Texto de apresentação do projeto:
Com a curadoria de Glaucia Nogueira, fundadora do Iandé, e Ioana Mello, colaboradora da associação, a participação do Iandé nesta primeira edição do Festival Diafragma soa como um brado de consciência. Podemos fechar os olhos para as estatísticas, as probabilidades e os prognósticos, mas é impossível ignorar a escritura fotográfica das catástrofes da contemporaneidade. A expropriação sem limites, seja do homem pelo homem ou da paisagem, acaba transformando nossas riquezas naturais em nossa maior pobreza.
Nos trabalhos dos sete fotógrafos propostos para o festival, buscamos a urgência de se reinventar uma outra maneira de existir nesta terra. Felipe Fittipaldi, Isis Medeiros, José Diniz, Júlia Pontés, Mateus Gomes, Moara Tupinambá e Paula Pedrosa nos mostram narrativas de ruptura, dominação, solidão e resistência. Um olhar sobre o território e sua ocupação que nos evoca uma imensa vontade de sobrevivência. Aqui a fotografia cumpre também seu papel de manter viva a memória. Pois sem memória há apenas a repetição cega de histórias de desamparo. O que queremos, através desta exposição, é inspirar o desejo de reconexão com essa terra única, mãe da nossa ancestralidade.
Artists and participants of the Festival (Photo Rui Campos) José Diniz
Host of a long talk about artist photography Book with brazilian artist José Diniz and portuguese artist Susana Paiva.
Antes de começar toda a minha argumentação, aproveito para pleitear AQUI o seu apoio à fotografia brasileira frente o debate político. Você que é ligado à cultura de uma maneira ou de outra, sabe da sua importância política e do nosso papel no Brasil atual.
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Ao longo da história, mais ou menos próxima, temos vários exemplos mundiais de coletivos de arte e formas de ativismo alternativas culturais. O beat, o dada, o fluxus, o rap, o funk carioca, a performance, a bossa nova, são alguns exemplos de processos culturais que se formaram para apresentar novas formas de comportamento e comunicação diante de velhas formas de sociedade e governo.
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@janine moraes, série as coisas não tem paz, 2015. Opção de recompensa da campanha coletiva aqui.
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Poéticas colaborativas de resistência cultural e transformação de comportamentos como construção de autonomia política.
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Em momentos de névoa no pensamento de um povo e um país, acredito que é responsabilidade da cultura de recuperar a memória perdida e de resistir a pressões do presente. Interna e externamente. A cultura é uma grande arma em prol da diversidade, do debate democrático e da legitimidade de movimentos sociais. É também o único meio de garantir que notícias, livros, filmes e obras de artes visuais e musicais progressistas cheguem a todos e permaneçam, após políticas de censura.
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@pedro kuperman, série Achaninka. Opção de recompensa na campanha coletiva aqui.
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A resistência cultural brasileira internacional age em todos esses níveis. Como por exemplo, a homenagem feita pela prefeitura de Paris à vereadora assassinada em 2018, Marielle Franco. Enquanto no Brasil, sob a bruma do ódio e do medo, dilaceravam a placa de rua feita em nome da vereadora ativista e difamavam seu nome e sua luta, a resistência no exterior pleiteou uma homenagem internacional. Resultado: a recordação da força e dos feitos de Marielle ficará na memória de todos, para além de um governo ignorante, sob forma de um jardim em Paris.
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Além disso, internacionalmente, a resistência cultural cria uma abertura que favorece encontros entre brasileiros e estrangeiros e enriquece o diálogo. Oportunidades de trocas de experiências importantes surgem e nos ajudam a entender nosso processo atual e a vislumbrar possibilidades futuras. É também uma ocasião de divulgação da produção contemporânea artística brasileira, tão castigada nos últimos anos.
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Para apoiar a exposição coletiva “What’s going on in Brazil?”, em Arles, e todo o debate político internacional que ela propõe fazer, basta clicar aqui.
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@shinji nagabe, série elevação. Opção de recompensa da campanha coletiva aqui.
Eu sei que passamos por momentos difíceis na cultura (pouco investimento, pouco apoio, pouca credibilidade) e por isso a importância (até a necessidade) de fazermos mais, falarmos mais, mostrarmos mais. Não estou aqui defendendo o “empreendedorismo” brasileiro que é apenas a tradução de um estilo de vida calcado na sobrevivência. Na verdade venho apenas jogar algumas ideias e ações interessantes que vi ultimamente por aí, e clamar que mais ações como estas sejam feitas. Pois são nossos esforços em comum que enriquecem o olhar e a troca entre todos.
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O brasileiro não é obrigatoriamente empreendedor, antes disso ele é uma vítima que tem que se virar para se sustentar.
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A galeria efémera.
12 amigos, e algumas imagens em pequeno formato a serem expostas numa galeria de fim de semana. Evento rápido, barato, com cheiro de novidade e modernidade. Os amigos chamam outros amigos, o evento cresce no boca a boca, assim como as oportunidades. Umas cervejas, muita conversa política e muita vontade de pensar no próximo evento, ainda maior, menos efêmero e mais ideológico. Essa específica galeria, foi num café, mas pode ser num apartamento, em um prédio desativado, em uma casa sem morador.
O artista francês Louis-Cyprien Rials trabalha em zonas de conflito na África. Ganhador do prêmio SAM de arte, ele trabalha com fotografia e vídeo tentando experimentar, a sua maneira, a impossibilidade de traduzir esses espaços abandonados, transformados, impregnados de crenças e atravessados por estigmas fatais. Expondo em três locais de Paris, sua trilogia da violência, ele dialoga com o público francês a necessidade de mostrar essas zonas de guerra. Mas de que maneira? E como ir além do apenas mostrar nas grandes salas chiques parisienses bebericando champagne?
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Num país devastado como a Somália, a cultura acaba sendo um luxo. Enquanto observava o artista e sua necessidade de dialogar sobre tantas urgências vividas, via os colecionadores ao seu redor sem grandes necessidades. Como estreitar essa ponte?
Ok, eu sei, ninguém aguenta mais tanta campanha de financiamento coletivo. Mas sem essa ajuda mútua, sem o apoio dos que percebem a importância da cultura, como agir sozinho? Como perpetuar acervos, criar projetos com comunidades longínquas, resistir, apresentar trabalhos de jovens artistas e aumentar o diálogo para além dos pares. Como construir uma memória e possibilitar outras visões? O fotógrafo JR Ripper, que já falamos aqui, começou uma linda campanha de financiamento para criação de acervo e doação de memória para Biblioteca Nacional. São imagens de quilombos, povos indígenas, ribeirinhos, antíteses das imagens clichês midiáticas, a serem digitalmente disponibilizadas de graça.