Todos olham sobre nós: fotografia e vigilância digital

.

Cada vez mais somos observados: celulares, drones, cameras, circuitos internos e externos… Edward Snowden já nos revelou um mundo onde tem sempre alguém vigiando você. E obviamente, inúmeros fotógrafos resolveram expor esse fenômeno contemporâneo preocupante. Tantos, que o movimento ganhou um nome: “arte da vigilância” (artveillance). Já falamos em um post anterior sobre o artista Yuri Pattison, que trabalha sobre esse tema mas para além da fotografia.

.

Algumas das interrogações mais agudas de Snowden, sobre o rastreamento de dados por empresas e pelo governo, são encontradas em galerias e outros espaços de arte. Fundações, grupos de pesquisa e coletivos artísticos se formaram para discutir os limites e desmedidas da vigilância digital: como o Art and Surveillance no Canadá ou a americana Open Society. Seguem 3 fotógrafos que lidam com a falta de privacidade e liberdade individual nos dias atuais.

.

@trevor paglen, “Limit Telephotography”, 2007

.

O artista americano, filho de militar, Trevor Paglen, é um dos nomes mais famosos associados a esse tipo de trabalho. Como esboçado no post anterior, Paglen há 20 anos tenta mostrar o lado invisível das geografias políticas do nosso tempo. Em seus trabalhos, “Limit Telephotography” e “The black sites”, ele tenta capturar lugares que não estão em mapas: bases aéreas secretas e prisões. Assim como elementos ainda mais impalpáveis como as redes de coleta de dados e vigilância que agora moldam nossas democracias: os satélites e inteligências artificiais do mundo digital.

.

O professor de arte de Maryland, o bengali Hassan Elahi foi parado no aeroporto por suspeita de terrorismo em 2002. Desde então ele se auto vigia 24 hrs por dia, com imagens fotográficas e coordenadas GPS, e envia tudo para seu algoz, o FBI. Como diz o próprio artista, dando tantos detalhes ridículos sobre sua vida, ele está dizendo tudo e nada e questionando a eficácia e validade dessas imagens para a vigilância digital.

.

seu monitoramento contínuo

.

@hassan elahi, little sisters, 2014

.

Trabalhando em um cassino americana como encarregada das cameras de vigilância, a fotógrafa Lauren Grabelle acabou se tornando a fotógrafa x. Do monitor das 800 câmeras (!), Lauren podia olhar qualquer indiscrição, seguindo pequenas narrativas humanas no espaço de algumas horas. Seu projeto consiste em prints das tela das cameras, feitos por ela, para questionar a veracidade desse tipo de imagem.

.

@lauren grabelle, Look At Me, 1998


Continue Reading

Harry Shunk e János Kender, fotógrafos de uma época

.

Já falamos aqui sobre fotografia e performance. Inclusive, mencionamos os fotógrafos tema do artigo de hoje: Harry Shunk e János Kender. Ativos entre os anos 50 e 80, entre Paris e Nova Yorque, esses dois fotógrafos se especializaram no universo artístico. Trabalharam para inúmeros artistas da época, contratados para documentar performances, happenings, vernissages, além de momentos mais íntimos da criação. Reuniram documentos de toda a efervescência cultural que acontecia nos dois principais polos de arte mundiais. Ao lado de artistas da contra cultura, como Andy Wahrol e Yayoi Kusama, exploraram novas formas de experienciar a arte e participaram de mudanças de pensamento.

.

@Shunk -Kender, Yayoi Kusama, 1968

.

@Shunk-Kender, Andy Wahrol, 1965

Shunk é alemão e Kender húngaro. Eles se encontram em 1957 na galeria Iris Clert, em Paris. Um ano antes de conhecerem Yves Klein e fotografarem sua primeira performance antropométrica no dia 5 de junho de 1958. Ao longo dos anos muitos outros nomes passaram pelas lentes desses dois fotógrafos: Niki de Saint Phalle, Claes Oldenburg, Jean Tinguely, Merce Cunningham Dance Company, Alan Kaprow, Yves Klein, Robert Rauschenberg e Armam.

.

Suas imagens não só participam de um momento de desenvolvimento de novas práticas artísticas, mas também de um momento importante no processo da própria fotografia. Foi uma época onde as fronteiras se abriram, e as diferentes mídias artísticas se misturaram com mais facilidade. A vontade era de fazer uma arte mais viva, liberar o corpo e o gesto artístico. Queriam aproximar o público, a natureza, trabalhar com mais improvisação e de maneira efêmera.

.

@Shunk-Kender, Christo e Jeanne-Claude, Wrapped Coast, 1969

.

E graças aos dois amigos, Shunk e Kender, essa efemeridade tomou corpo e hoje podemos ver o que lemos nos livros de história. Porém os dois fotógrafos não são apenas documentaristas, eles criam com a originalidade de seus objetos. E participam nos questionamentos, como por exemplo com a fotografia de Yves Klein pulando no vazio. Além das performances, o acervo de Shunk-Kender tem inúmeros retratos e momentos de intimidade de cada artista.

.

O centro Pompidou adquiriu 2000 impressões originais do acervo de Shunk-Kender e consacra a primeira retrospectiva dos fotógrafos numa exposição gratuita até 5 de agosto de 2019.

.

@Shunk-Kender,Yves Klein, estudo leap into the void, 1960

.

@Shunk-Kender,Yves Klein, estudo leap into the void, 1960

.

@Shunk-Kender,Yves Klein, estudo leap into the void, 1960

.

Continue Reading

Escrita fotográfica

Critic writer about photography, art and our contemporary era.

Parte do texto de minha autoria:

A fotografia como representação da vida

Em meio a crise política, econômica e sobretudo humana das migrações que vivemos hoje em escala global, me pergunto onde podemos realmente ver o refugiado? Eu sei, você vai me responder que o refugiado está em toda parte. Sim, lemos inúmeros artigos em jornais e revistas, ouvimos diversas opiniões de especialistas e estudiosos, temos acesso rápido a milhões de links nas mídias sociais e o observamos em tantas imagens de grandes fotógrafos sobre a crise. Porém, dentro desse emaranhado de opiniões e fatos, a figura daquele que buscou refúgio em outro país se banaliza e ele se perde em representações simples e redutivas. Em geral, sua imagem se esfacela no pouco acesso que temos à uma representação interna e diretamente feita pelos próprios exilados. Ou seja, falta diálogo, falta conexão e proximidade com as verdadeiras vítimas dessa tragédia. Aquele que precisa se exilar de seu país acaba sendo retratado de fora, numa comunicação calcada na desconexão e na distância.


Shinji Nagabe é considerado um nissei, ou seja, um brasileiro descendente de japonês, mas como vemos em seu trabalho, ele ultrapassa essa etiqueta. De família simples do Paraná, e tendo vivido uma infância solitária, o que percebemos das origens de Shinji são seus dois pilares culturais que transbordam em suas imagens. Já adulto, Shinji saiu do Brasil imigrando para França. “ESPINHA” é o resultado deste processo de transição para um novo país, de descobrimento íntimo e de reencontro com a fotografia. Um projeto pessoal com um título em duplo sentido para conseguir captar seus profundos questionamentos de artista imigrante, com duas nacionalidades de base. A espinha é tanto o osso que sustenta o corpo e as raízes de sua origem como também a espinha que fere, a realidade que dói, mas que ao mesmo tempo serve de proteção.

Continue Reading

Leituras de portfólio

Faço parte da coordenação das leituras de portfólio do FotoRio desde 2015, além de leitora. E participo de diferentes festivais e eventos enquanto leitora de portfólio.

Coordinator of FotoRio’s portfolio reviews since 2015, in addition to being also a reader. And I participate in different festivals and events as a portfolio reader.

.

.

.

.

Continue Reading

Privacidade e relações de força na fotografia

.

Semana passada falamos aqui de duas facetas da fotografia: a sua importância em revelar e evidenciar mas sem ser a qualquer custo. Fotografar requer saber o que mostrar, com responsabilidade, diálogo e posicionamento.

.

Escolhi algumas imagens no post anterior de fotógrafos que fazem pontes e se posicionam: que condenam quando têm que condenar. E que dialogam com seus retratados, criando aberturas. Foram imagens do mineiro Eustáquio Neves que trabalha sobre a identidade e luta da comunidade afro-descendente no Brasil e no mundo. E imagens do projeto de diálogo e inlcusão do jovem Pedro Kuperman com os índios Ashaninka.

.

Hoje resolvi pensar em mais fotógrafos que delicadamente revelam uma questão. Sem agressão ao sujeito, ao assunto ou à privacidade. As imagens revelam o que pode ser revelado com ética e sobretudo com um verdadeiro olhar ao outro e um posicionamento diante dos temas discutidos.

.

Vamos conferir!

.

Richard Mosse: fotojornalista irlandês que ganhou muitos prêmios com imagens de guerra. Seu olhar se posiciona, tentando criar uma nova perspectiva dos conflitos que clicou.

.

Richard Mosse, Grid, 2017

.

Omar Victor Diop: fotógrafo de Dakar, Omar segue a tradição dos estúdios de fotografia mas com um olhar apontado para a falta de oportunidade da comunidade negra e sua representação caricaturada.

.

Omar Diop, (re) mixing Hollywood, 2013

.

Omar Diop, (re) mixing Hollywood, 2013

.

Paul Mpagi Sepuya: retratista de amigos e pessoas próximas, Paul trabalha da cultura visual homoerótica dentro da “proteção” e privacidade do estúdio. Suas fotografias altamente trabalhadas, e fragmentadas, são uma constante negociação entre o artista, o sujeito e o espectador.

Paul Mpagi Sepuya,Study for a Self Portrait 2015,

.

.

David Uzochukwu: outro retratista, europeu, que trabalha o corpo humano e nossos limites entre força e vulnerabilidade.

.

Continue Reading