Entre visão e cegueira nos dias de hoje

A fotografia é a arte do olhar. Como o olho humano, a câmera fotográfica trabalha fundamentalmente da mesma maneira, ou seja, como uma câmara escura que apreende a energia luminosa, de acordo com algumas características técnicas, formando em seu interior uma imagem. O olho humano possui exatamente a mesma função, formando imagens a partir da luz e transmitindo-as através de impulsos ao cérebro. Por outro lado, assim como a fotografia, o olho humano recorta do mundo a sua visão pessoal e escolhe mostrar a sua edição subjetiva.

 

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara – José Saramago

 

Fazendo um paralelo, a fotografia pode nos ensinar muito sobre a visão; essa que é um dos cinco sentidos do ser humano responsável por aprimorar a nossa percepção do mundo. Entre semelhanças e diferenças, o olhar fotográfico também pode nos levar a novas possibilidades de pensar e perceber o mundo, e a nós mesmos. Mas temos que olhar. Não basta querer enxergar com o olho esquerdo ou o direito, tem que abrir bem os dois olhos e observar ao redor.

 

O filósofo francês Gilles Deleuze considerava a nossa sociedade como a “civilização do clichê”, por um lado, porque as imagens em excesso produzidas hoje provocam uma banalização do que vemos e com isso não enxergamos mais e, por outro lado, pelo interesse político e econômico do poder constituído em distorcer o corpo imagético propagado. Nesses casos, a imagem deixa de ser visão para se transformar em instrumento de cegueira.

 

De repente, a realidade tornou-se indiferenciada a sua volta. – José Saramago

 

Mas arte não é cegueira. Fotografia é liberdade e reconciliação. É superar medos e abrir caminhos. A fotografia nos ajuda a tirar os óculos escuros e enxergar. É uma maneira de resistir, mostrando outros caminhos possíveis, outras realidades, e assim abrindo paradigmas. A arte coloca o dedo na ferida, questiona, faz mal, mas indica como podemos ser melhores do que somos hoje. Acredito que a fotografia orienta nosso olhar para quem não está nas redes sociais, para quem não tem espaço ou possa se retratar. A fotografia pode indicar a mudança, pode esclarecer a empatia, pode resistir e lutar.

 

O medo cega, disse a rapariga de óculos escuros. São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos. – José Saramago

 

Paulo Marcos Lima, 2018

 

Ana Carolina Fernandes, 2018

 

Ana Carolina Fernandes, 2018

 

Nana Moraes, 2018

 

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Imagens de folia, de resistência e de pertencimento

Muitos projetos fotográficos se desenvolveram ultimamente com o intuito de resistir através do olhar. Como já discutimos aqui, a imagem é, sobretudo nos dias de hoje, um elemento poderoso do discurso do poder, podendo corroborar a ideologia que quisermos. Existem muitos olhares, e é importante dar espaço a todos, justamente para deixarmos cada um escolher a sua verdade.

 

Com a necessidade de mostrar seus próprios olhares sobre o carnaval em favelas e subúrbios, um coletivo de fotógrafos independentes começou, em 2013, a registrar as manifestações culturais carnavalescas menos mediatizadas. Formados pela Escola de Fotógrafos Populares*, esses fotógrafos montaram o projeto Folia de Imagens que desconstrói vários pré-conceitos, tabus e clichês, do carnaval da periferia, que tanto foram perpassados pela grande imprensa no poder.

 

Eduardo Santos

 

Aqui saímos da praia de Copacabana e dos grandes blocos das estrelas da Globo. O importante não é a pele bronzeada, a menino escultural ou a musa do verão, é a história carioca, o patrimônio cultural e os pontos relevantes de cada ano, como ano passado, em 2017, que o feminismo e a crise política ganharam destaque. Não há generalização nas fotos, aqui os blocos longínquos da Zona Sul e marginalizados pela grande mídia são retratados em sua totalidade e não apenas quando há mortes ou brigas.

 

AF Rodrigues

 

O registro da folia é feito de forma democrática com o intuito de redefinir a identidade e fortalecer o pertencimento de todos. Entre os vários fotógrafos que participam, temos Léo Lima, por exemplo, que desenvolve uma pesquisa imagética com os moradores do Jacarezinho, temos também AF Rodrigues e Elisangela Leite com uma vasta documentação sobre o bloco da lama, ou a greve dos garis em 2014 pelas lentes de Luiz Baltar ou ainda o olhar menos estigmatizado de Fabio Caffé sobre os bate-bolas.

Independente do bloco, existe o cuidado com o reconhecimento de cada grupo, com a preservação de uma memória e com a importância de múltiplos discursos e olhares.

 

Fabio Caffé
Daniel Barreiros

 

*A Escola de Fotógrafos Populares foi fundada pelo fotógrafo João Roberto Ripper em 2004 como uma formação em documentação fotográfica, edição, digitalização e arquivamento digital para residentes e estudantes universitários de comunidades populares do Rio de Janeiro, Niterói e Baixada Fluminense.

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Carnaval em imagens

Para a grande maioria, durante a folia não temos tempo de ler, ou porque estamos pulando o Carnaval ou porque simplesmente não queremos fazer nada, apenas relaxar e recuperar o sono atrasado das semanas de trabalho.

 

Com isso, como ano passado, proponho um pot-pourri de imagens carnavalescas para descobrimos o Carnaval aqui e ali, hoje e ontem. Aliás, aproveitando, para quem está no Rio de Janeiro, a Galeria da Gávea está com uma linda exposição coletiva, “Vadios e Beatos”,  sobre o Carnaval brasileiro. Com curadoria de Marcelo Campos, 54 obras mostram a boêmia do Carnaval, com imagens de fotógrafos como Miguel Rio Branco e Guy Veloso, além de 2 vídeos do mesmo tema. Vale a pena conferir, mesmo depois dos blocos pois a exposição fica até março.

 

E bom Carnaval para todos!

 

Meu Deus! Meu Deus!
Seu eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social

Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação.

– Samba Enredo 2018, Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?, G.R.E.S Paraíso do Tuiuti.

 

Folia de Imagens, Leo Lima, 2018

 

Daniel Marenco (Globo), Jovem, 2018

 

William Klein, Nice, 1984

 

John Vink (Magnum), Carnaval de Veneza, 1982

 

Marcel Gautherot, Rio de Janeiro, 1960
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Apropriação e polêmica no universo fotográfico

A incrível história do falso fotógrafo da ONU que estampou todas as redes de notícias esses últimos dias dá pano para muita discussão sobre fotografia e mercado. Eduardo Martins seria um jovem fotógrafo paulista que depois de uma infância difícil se dedicava a fotografia de guerra. Usando as mídias sociais contra elas mesmas, o tal fotógrafo brasileiro foi se criando uma rede de fãs, aumentando sua carreira virtual, ganhando “likes” e comentários de pessoas supostamente importantes virtualmente, chegando a mais de 120 mil seguidores no instagram. Oferecendo suas imagens de graça, divulgou seu “trabalho” fotográfico em sites de notícia como o The Wall Street Journal, a Vice e a BBC Brasil. O problema é que esse trabalho (e sua identidade) era roubado de outros fotógrafos (e modificado para não ser rastreado) e que ninguém até agora reconheceu Eduardo nas zonas de conflito que ele diz ter estado. O personagem Eduardo Martins conseguiu se manter real e ativo por dois anos!

 

Seria Eduardo Martins uma obra de arte em si? Um projeto anti-sistema, que escancara suas fragilidades? Um personagem para questionar as loucuras da divulgação e distribuição precária, pouco exigente e banalizada das fotos jornalísticas? Uma ironia para falarmos de apropriação, plágio e direito autoral na fotografia? Como disse, são muitos os preâmbulos que Eduardo Martins nos abre, por onde começar…

 

“Art is what you can get away with. (Arte é tudo aquilo que você pode se safar)” – Andy Warhol

 

Andy Warhol, Díptico Marilyn, 1962

 

Nas minhas reflexões sempre me interessei sobre apropriação na arte, e Edu Martins me fez pensar em alguns artistas como Richard Prince e Andy Warhol. Richard Prince trabalha justamente com a apropriação de imagens de jornal, publicidade, livros, e agora instagram. Seu trabalho consiste em se apropriar de imagens de outros fotógrafos e dar novos significados. Ele muda um pouco a imagem e a coloca em outro contesto evidenciando questões que perpassam a história da arte e que estão cada vez mais gritantes no mundo contemporâneo virtual.  Prince refotografa, recorta, aumenta, diminui, acrescenta comentários, escaneia…

 

O artista e pintor americano começou seu questionamento sobre apropriação nos anos 70 ao refotografar uma imagem de Sam Bell de um cowboy na propaganda de cigarros Malboro. A reprodução é feita de maneira que o ícone publicitário aparece em tamanho maior ao da campanha original. Nos moldes do nosso falsário Eduardo Martins, Prince usa o próprio sistema, ou seja, a própria linguagem da comunicação de massa como ferramenta contra ela mesma. Ele lida com o crescente interesse nas questões de comunicação e produção em massa, de consumação, de banalização da fotografia, de (re)significação da imagem dependendo de seu meio de apresentação… Porém, diferente de Eduardo Martins, Prince não finge ser o que não é, mesmo que muitas vezes extrapole.

 

Richard Prince, Cowboy, 1975

 

Richard Prince, exposição “Novos Retratos”, Gagosian, NY, 2014

 

Prince não fugiu das redes sociais depois que foi pego em flagrante, e defende seu “roubo” de imagens com veemência. Para ele, a enorme disponibilidade de imagens em circulação no mundo cria uma plataforma cujo resultado criativo se torna patrimônio comum. Na era digital, quando cada momento é capturado em imagem e compartilhado nas redes sociais numa escala global, as experiências são imediatamente visualizadas e consumidas por todos. A percepção do mundo – identidade, gênero, etnia, desejo e sexualidade – é moldada pelas imagens.

 

Mas ser fotógrafo nesse mundo não é fácil. A concorrência com os bancos de imagem é enorme, não existe poderosas agências para defender o interesse dos fotógrafos, suas imagens são compradas por muito pouco quando não são compartilhadas de graça, sem nem uma menção ao nome do artista. Prince já respondeu a alguns processos ao longo de sua carreira, sobretudo porque suas obras vendem bem no mercado de arte. Mas ele ganhou todas elas (mesmo que muitas vezes tenha feito acordos no meio do processo). Afinal, “não seria a vida uma série de imagens que mudam a medida que se repetem”? – Andy Warhol.

 

 

 

 

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Venha descobrir um pouco mais do início da carreira de Henri Cartier Bresson e seu momento decisivo

Um grande nome da fotografia mundial, Henri Cartier Bresson, está em cartaz numa bela exposição em São Paulo. Fotojornalista, teórico, fundador da grande agência de fotógrafos Magnum e pai do momento decisivo, as imagens de HCB são conhecidas por todos. Por esse lado, é extremamente prazeroso andar pela exposição em cartaz, nosso olhar sempre recai em imagens familiares.

 

Organizada por João Kulcsár, a exposição no SESI-SP reúne 58 imagens feitas no início dos anos 30, ou seja, do início da carreira de HCB. O fotógrafo nasceu em 1908 na França, entrou no mundo artístico pela pintura antes de descobrir a fotografia em 1931 através de um amigo militar e da influência dos artistas surrealistas da época.

 

A fotografia é uma lição de amor e ódio ao mesmo tempo. É uma metralhadora, mas também é o divã do analista. Uma interrogação e uma afirmação, um sim e um não ao mesmo tempo. Mas é sobretudo um beijo muito cálido. – Henri Cartier Bresson

 

Em 1935, HCB viaja para os EUA e participa de uma exposição na histórica galeria Julien Levy de Nova York ao lado do mexicano Manuel Álvarez Bravo, principal nome da fotografia latino-americana, e do norte-americano Walker Evans, conhecido pelo registro que fez dos efeitos trágicos da Depressão americana. Os três fotógrafos tem em comum imagens do cotidiano, tiradas no meio da rua, de pessoas comuns, com muito grafismo e momentos decisivos. São as imagens dessa exposição, intitulada Documentary and Anti-Graphic Photographs, que podemos ver em São Paulo.

 

Hyères, França, 1932

 

Prostitutas, Mexico, Calle Cuauhtemoctzin, 1934

 

O legal de observar o início da carreira de um grande fotógrafo é que podemos vislumbrar suas influências, enxergar seus primeiro passos e obstáculos e percorrer com ele uma parte de seu caminho. Nesse caso, estamos diante de um HCB bem antes de sua teoria sobre o momento decisivo na fotografia, elaborada em 1952. Talvez sejam fotos mais fluídas, menos estruturais, mas também são mais livres e experimentais.

 

Para mim a fotografia é o reconhecimento simultâneo, numa fracção de Segundo, do significado de um evento, a par da precisa organização das formas que dão ao evento referido a expressão apropriada. – Henri Cartier Bresson

 

Foi no livro Images à la sauvette, escrito em 1952, que HCB primeiro mencionou o termo “momento decisivo”. Termo polêmico, tido como incompreendido por muitos, fala de uma maneira de fotografar numa época histórica específica. O momento decisivo seria o saber esperar na fotografia do instante perfeito entre o sujeito, o espaço e o movimento. Seria um estudo minucioso geométrico e formal, onde o fotógrafo não poderia recortar nenhuma outra imagem do negativo original. Seguindo ou não essas ideias, o momento decisivo marcou uma geração de fotógrafos e foi importante para a teorização da fotografia. Vale a pena conferir o início desse pensamento, o tatear de um grande fotógrafo na exposição em SP.

 

 

*Galeria de Fotos do Centro Cultural Fiesp, Av. Paulista, 1.313, de 18 de abril a 25 de junho de 2017.

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