Circulações européias em um festival

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Antes de falarmos do Festival Circulations, gostaria de fazer um ponto sobre a importância dos festivais. Festivais de fotografia são valiosos catalisadores do mercado fotográfico. Mas eles vão muito além disso, sendo estimuladores de ações artísticas, sociais e políticas, de conhecimento e trocas entre os profissionais e o público. Por serem muitas vezes independentes, criam a (única) oportunidade de novos talentos exporem seu trabalho e de diferentes gerações interagirem. Em momentos de precariedade cultural, servem também como palco de debates democráticos, resistência e diversidade.

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No Brasil temos inúmeros festivais de fotografia que persistem – FotoRio, PEF, Foto em Pauta, para citar alguns – e outros tantos que foram criados em 2018, como o Solar em Fortaleza e o Festival de Paranapiacaba em SP. Talvez pela falta de dinheiro e importância dada à cultura esses últimos tempos, os festivais tenham conseguido sobreviver com a ajuda financeira de todos e muito voluntariado. Como uma necessidade urgente de encontro, luta e resistência.

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Vamos ajudar os festivais!

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Antes de continuar para o nosso tema, vale ressaltar que o photolimits e o Iandé estão produzindo uma exposição coletiva brasileira, no festival Rencontres d’Arles, em julho, sobre os rumos atuias do Brasil. E todos nós podemos ajudar a expandir essa exposição para um espaço de debates democráticos, luta e resistência. Basta clicar aqui e apoiar.

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Nessa mesma onda, temos um exemplo francês, o festival Circulations, desde 2011. Resultado da associação Fetart, criada em 2005, o festival é totalmente dedicado ao fomento de novos fotógrafos europeus. Produzido por um grupo de voluntários, com ajuda de financiamento coletivo, em cada edição o festival apresenta uns 40 artistas europeus. Eles escolhem 30 por candidatura online, outos são convidados pela produção do festival e por fim, a cada ano, eles tem alguns fotógrafos indicados por uma escola e uma galeria.

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Esse ano podemos ver o engajamento em vários trabalhos, como do português Miranda Nelson (artista escolhido pela galeria convidada, Adorna Corações), do espanhol Rubén Martin de Lucas ou ainda do grego Yorgos Yatromanolakis. O país europeu em foco é a Romênia. Foi uma boa descoberta observar os trabalhos contemporâneos com fotos de arquivo de Mihai e Horatiu Sovaiala e Ioana Cîrlig, e as imagens de resgate à cultura tradicional de Felicia Simion.

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O festival fica em cartaz até dia 30 de junho no enorme espaço 104, em Paris.

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Desconstruindo os cartões postais

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A fotógrafa francesa Elsa Leydier depois de se formar na escola de fotografia de Arles, e viajar pelo mundo, resolveu se mudar para o Brasil. E é através da fotografia, que ela vive esse deslocamento territorial e identitário. Com um olhar agudo, ela discute em suas imagens toda complexidade brasileira que não é mostrada no exterior. Sua preocupação é fugir do clichê e das imagens dos cartões postais.

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Ela está longe de ser a turista tradicional!

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A jovem artista se interessa justamente pelo que não é dito; pelo o que está na margem, fora dos limites e longe dos esteriótipos. Seu trabalho mistura a fotografia com diferentes mídias, como jornais e colagens. E ela nem sempre está atrás da câmera. Em sua série “Esgotados” de 2014, por exemplo, ela utilisa imagens de cartões postais de índios em uma colagem com selos comemorativos da Copa do Mundo no Brasil. Uma crítica à ganância dos jogos de futebol e a pouca importância dada à cultura tradicional indígena. Enquanto os selos arrecadaram milhões de reais, o Museu do Índio, perto do Maracanã, foi destruído para dar lugar a restaurantes e lojas para os turistas da Copa.

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@elsa leydier, esgotados, 2014

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@elsa leydier, #elenão, 2018

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Uma de suas últimas séries fotográficas é calcada na eleição de Jair Bolsonaro: “#elenão”. Aqui ela apresenta imagens associadas à palavra “Brasil” encontradas na internet, as relaciona com o discurso de ódio profanada pelo nosso atual presidente e as altera por um processo de glitching. Resultado: belas imagens desconstruídas. Os cartões postais coloridos, alegres e purpurinados, são modificados através de um discurso anti-democrático. O que temos são fotografias simbólicas de um país em crise.

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Para os que estarão em Paris, até dia 20 de abril, a artista apresenta um pouco do seu trabalho na galeria Intervalle com a exposição “Transatlántica”.

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@elas leydier, braços verdes e olhos cheios de asas
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Jungjin Lee e suas portas para paisagens fantásticas

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A galeria Camera Obscura é um lugar pouco frequentado pelos turistas em Paris. De frente para a Fondation Cartier, no lindo boulevard Raspail do 14ème arrondissement, a galeria vale muitíssimo a visita. Fundada em 1993 pelo laboratorista francês Didier Brousse, a galeria é especializada em fotografia contemporânea tradicional. As exposições são cuidadosamente montadas. E, em sua maioria, são voltadas para um lado mais artesanal da fotografia: tiragens feitas pelo artistas, P&B, papéis fotográficos com texturas e molduras bem acabadas.

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Mas não se enganem, a galeria não parou no tempo. Alternando fotógrafos renomados, como Sarah Moon, e outros menos conhecidos, Didier gera sua galeria com um olhar para o futuro. Figurinha certa na feita de fotografia Paris Photo, a galeria é um ponto de encontro muito agradável para qualquer amante da fotografia.

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Opening #24, Jungjin Lee, 2015/2016

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Nesse momento, a galeria expõe a fotógrafa coreana Jungjin Lee que vive e trabalha em Nova Iorque. As imagens de Jungjin são em sua maioria paisagens “monótonas”, sem grandes detalhes e sem a presença humana. Imagens em P&B, com muita textura, que emanam uma enorme calma e serenidade.

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Desde sua primeira série, Desert, de 1990, a artista usa uma técnica muito particular de impressão. Ela imprime em um papel coreano chamado Hanji, um papel artesanal de amoreira com bordas irregulares. Suas impressões finais são uma combinação de processos analógicos, feitos no laboratório, e ajustes digitais. No fim, ela imprime a partir do arquivo digital no papel Hanji. Essas imagens são um exemplo perfeito da diferença do olhar ao vivo e na tela do computador. Aqui a fotografia vira um objeto, cheio de detalhes extras do papel, e vê-la frente a frente causa um impacto maior.

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“Enquanto fotógrafa, eu estou principalmente preocupada com o inconsciente, o desconhecido e o invisível.” Jungjin Lee

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Desert, Jungjin Lee, 1990/1994.

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Lee cria paisagens fotográficas culturais e emocionais que misturam técnicas e materiais das tradições orientais e ocidentais, da pintura e da fotografia. Há ruído, superposição, sugestão e há profundidade. Parece que o espectador está olhando através de acúmulos de espaço ou de tempo. E suas paisagens são muitas vezes vistas na vertical, como portas convidando o público a adentrar esses caminhos. E são caminhos que parecem se estender sem fim, numa vastidão de camadas.

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Wind, Jungjin Lee, 2004/2007

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Caminhos, rochas, montanhas, horizontes, monólitos, areia, mar e muito jogo de luz e sombra. Sem títulos ou explicações, suas imagens se resumem a elementos essenciais da natureza. Uma enorme natureza em seus pequenos detalhes que nos envolve. Por isso, mais uma vez, a importância de ver o trabalho ao vivo. Mesmo que seus livros também sejam feitos com muito esmero perpassando na leitura a atmosfera misteriosa e melancólica da artista.

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Esse universo fantástico da artista me parece quase uma viagem ao espírito. As linhas e formas escondidas pelas árvores e pedras nos sugerem uma mudança para vir, ou um monstro pronto para surgir. Ou ainda, nossos próprios devaneios, medos e sonhos que vão e vem em camadas mentais. Portas para o nosso próprio eu.

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Opening, Jungjin Lee, 2015/2016.

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Jungjin Lee – Opening – Ocean até 30 de março na galeria Camera Obscura, 268 boulevard Raspail, 75014.

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Tempo Suspenso em Paris, 2021

Organizadora e participante da projeção e bate papo sobre os festivais de fotografia brasileiros. Evento organizado junto ao Foto em Pauta, FotoRio e Doc Galeria, feito na galeria Ithaque, durante o Paris Photo 2021 e dentro da programção do Photodays (França, 2021). A projeção “Um tempo suspenso” foi editada por Paulo Marcos Lima e contou com a participação de mais de 60 fotógrafes brasileires.

Organizer and participant in the projection and chat about Brazilian photography festivals. Event organized together with Foto em Pauta, FotoRio and Doc Galeria, held at the Ithaque gallery, during Paris Photo 2021 and within the Photodays program (France, 2021). The projection “A suspended time” was edited by Paulo Marcos Lima and had the participation of more than 60 Brazilian photographers.






			
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Residência Ithaque, 2022

Parte da equipe de organização da residência, “A Noite escura”, na galeria Ithaque, Paris 2022.

O Ithaque é um laboratório de fotografia analógica assim como um espaço de galeria dedicado à fotografia impressa em gelatina de prata, em preto e branco. Seu programa de residências tem o objetivo de receber, todos os anos no outono, um/a fotógrafo/a latino-americano/a para um mês intensivo impressão analógica em preto e branco, criando um diálogo entre culturas em torno da fotografia analógica. Esta primeira edição, A Noite Escura, receberá um/a ganhador/a de 3 de outubro a 4 de novembro de 2022 e é destinada a fotógrafos/as brasileiros/as. 

O projeto conta com a colaboração do FotoRio para este intercâmbio entre França e Brasil. Essa colaboração não é nova, pois os dois já trabalharam juntos (com a participação do Foto em Pauta e Doc Galeria) em 2021 para organizar uma projeção sobre fotografia brasileira no Ithaque durante o Paris Photo. 

Essa colaboração se materializa com a presença de Ioana Mello (membra da equipe de organização do FotoRio) como parte do grupo de produção, e Milton Guran, fundador da FotoRio, como parte do júri da residência, ao lado de outras personalidades renomadas da fotografia e da arte contemporânea: Agathe Gaillard, Sandra Hegedüs, Jean-Luc Monterosso, Solenn Laurent…

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Part of the team that organized Ithaque residency for Latin American photographers, Paris 2022.

Ithaque is a shared darkroom with a gallery space dedicated to black and white silver gelatin printing. The residency program has the goal to welcome, each year in the fall, a Latin-American photographer for a month of intensive black and white printing, in order to create a dialogue between cultures around the act of silver gelatin printing. This first edition, A Noite Escura, will welcome the laureate from October 3rd until November 4th, and is aimed for Brazilian photographers.

Ithaque is collaborating with FotoRio for this exchange between France and Brazil. This collaboration isn’t new, since they already worked together (along with Foto em Pauta) in 2021 to organize a projection about Brazilian photography at Ithaque during Paris Photo.

This collaboration is materialized through the presence of Ioana Mello (FotoRio board of directors) as part of the production group, and Milton Guran, FotoRio founder, as a part of the jury for the residency, alongside other renowned personalities of the photographic and contemporary art world: Agathe Gaillard, Sandra Hegedüs, Jean-Luc Monterosso, Solenn Laurent…

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