Imagens de folia, de resistência e de pertencimento

Muitos projetos fotográficos se desenvolveram ultimamente com o intuito de resistir através do olhar. Como já discutimos aqui, a imagem é, sobretudo nos dias de hoje, um elemento poderoso do discurso do poder, podendo corroborar a ideologia que quisermos. Existem muitos olhares, e é importante dar espaço a todos, justamente para deixarmos cada um escolher a sua verdade.

 

Com a necessidade de mostrar seus próprios olhares sobre o carnaval em favelas e subúrbios, um coletivo de fotógrafos independentes começou, em 2013, a registrar as manifestações culturais carnavalescas menos mediatizadas. Formados pela Escola de Fotógrafos Populares*, esses fotógrafos montaram o projeto Folia de Imagens que desconstrói vários pré-conceitos, tabus e clichês, do carnaval da periferia, que tanto foram perpassados pela grande imprensa no poder.

 

Eduardo Santos

 

Aqui saímos da praia de Copacabana e dos grandes blocos das estrelas da Globo. O importante não é a pele bronzeada, a menino escultural ou a musa do verão, é a história carioca, o patrimônio cultural e os pontos relevantes de cada ano, como ano passado, em 2017, que o feminismo e a crise política ganharam destaque. Não há generalização nas fotos, aqui os blocos longínquos da Zona Sul e marginalizados pela grande mídia são retratados em sua totalidade e não apenas quando há mortes ou brigas.

 

AF Rodrigues

 

O registro da folia é feito de forma democrática com o intuito de redefinir a identidade e fortalecer o pertencimento de todos. Entre os vários fotógrafos que participam, temos Léo Lima, por exemplo, que desenvolve uma pesquisa imagética com os moradores do Jacarezinho, temos também AF Rodrigues e Elisangela Leite com uma vasta documentação sobre o bloco da lama, ou a greve dos garis em 2014 pelas lentes de Luiz Baltar ou ainda o olhar menos estigmatizado de Fabio Caffé sobre os bate-bolas.

Independente do bloco, existe o cuidado com o reconhecimento de cada grupo, com a preservação de uma memória e com a importância de múltiplos discursos e olhares.

 

Fabio Caffé
Daniel Barreiros

 

*A Escola de Fotógrafos Populares foi fundada pelo fotógrafo João Roberto Ripper em 2004 como uma formação em documentação fotográfica, edição, digitalização e arquivamento digital para residentes e estudantes universitários de comunidades populares do Rio de Janeiro, Niterói e Baixada Fluminense.

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Andanças pelos arquivos da Magnum ou a fotografia de guerra

O pouco conhecido espaço Le Bal em Paris, mixto de café e espaço expositivo totalmente dedicado a fotografia, exibiu uma linda exposição sobre o arquivo da histórica agência fotográfica MagnumMagnum Analog Recovery. Afinal, esse ano a Magnum completa 70 anos! À curadora, Diane Dufour, é dada a tarefa de percorrer as caixas no sótão da agência e pinçar preciosidades entre fotos nunca antes publicadas e bilhetes e notas, entre fotógrafos e editores, esquecidos há tantos anos. Através de suas descobertas, vamos desvendado emocionantes histórias de bastidores. Acima de tudo, muito do processo criativo e das dificuldades enfrentadas pelos fotógrafos é revelado de maneira sensível e arrebatadora nas imagens e depoimentos.

 

 

Viramos testemunhos das abordagens contraditórias da profissão de fotojornalista, dos embates éticos, políticos, morais, pessoais e sensíveis diante da guerra, da injustiça, da brutalidade e até mesmo do frívolo. Um por trás de cena, permeado com dúvidas e tensão, da parte deles, fotógrafos, e da nossa parte, espectadores, também testemunhas de um assunto sempre atual e gritante nos jornais e sites de hoje em dia.

 

Depois de Budapeste eu não quis cobrir nenhuma outra revolução ou guerra. Antes, eu pensava, como Capa, que ao fotografar nós conseguíamos mostrar o verdadeiro rosto du mundo, e ter uma certa influência, mesmo que pequena, sobre o comportamento e o rumo da política. Porém, todo jornalista aprende em algum momento, mais ou menos longo, que essa ideia é falsa – as mais terríveis fotografias de guerra não terminarão com a guerra. Ao mostrar a revolução, você não está ajudando a revolução, nem ao contrário; você está apenas documentando. E eu não tenho nem mais certeza que seja importante documentar na medida em que isso não muda absolutamente nada. E eu me pergunto se um documento que não muda nada pode ser considerado um documento válido. – Erich Lessing

 

Erich Lessing, Budapest Revolution, 1956

 

Essa imagem foi usada durante a campanha do presidente Nixon para mostrar que ele podia se opor aos soviéticos… Eu gosto muito dessas imagens, mas não tenho orgulho da finalidade pelas quais elas foram usadas – mas o que eu podia fazer? Eu sou apenas o fotógrafo. – Elliot Erwitt

 

Elliott Erwitt, USSR, 1959.

 

Durante uma guerra é necessário odiar ou amar alguém, tomar partido, senão é insuportável o que acontece ao seu redor. – Robert Capa

 

Gilles Peress, Telex Iran, 1979/1980
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Hollywood: Criando mitos

No início os filmes nem sequer citavam os nomes dos atores, o público reconhecia os rostos familiares como sendo a Biograph ou a Vitagraph Girl (produtoras de cinema da época). Em 1911, a revista Motion Picture World pediu para os produtores de Hollywood colocarem na tela o nome de seus principais intérpretes. Os tipos iam se fixando no imaginário do público – certos atores eram vilões, algumas atrizes eram vamps. Alguns executivos dos estúdios eram particularmente habilidosos na manipulação do Star System, L. B. Mayer lançou as duplas Greta Garbo – John Gilbert, Mickey Rooney – Judy Garland, Clark Gable – Jean Harlow, Spencer Tracy – Katherine Hepburn.

 

Foi uma das grandes jogadas da indústria cinematográfica. Por meio da imagem das revistas especializadas, colunas de fofocas em jornais, escândalos, inventados ou não, criavam-se estrelas da noite para o dia. O público passa a se identificar com seus astros prediletos, e a partir daí consome tudo aquilo que tem alguma ligação com a estrela em questão.

 

A estrela era laboriosamente construída, para formar a imagem e produto ideal, aquele que todos querem consumir. Com isso, muitos atores que na época foram considerados verdadeiros galãs, que faziam as filas das estréias lotarem, muitos casais considerados perfeitos, que faziam as mocinhas torcerem para o difícil final feliz, e muitas vedetes consideradas virginais e ingênuas não passaram de imagens inventadas, criadas para satisfazer os anseios do público.

 

Cecil Beaton, Marilyn Imortal, 1956.

 

E o star system continua atualíssimo, em Hollywood, na Globo ou no SBT. A “fotografia de fofoca” continua sempre em alta.

 

Mas, o que nos leva a simpatizar com galãs falsos e histórias mal contadas? Todo relacionamento entre nós e o ator, inclusive a opinião que temos acerca de seu trabalho, tem que ser transmitido afetivamente, através de uma conexão inconsciente, um vínculo tácito.

 
 

A fotografia é a prova, uma das mais firmes, da existência de um fato.

 

 

Cecil Beaton, Rudolf Nureyev, 1960

 

A imagem tem uma forma intrínseca e natural de manipular, ela tem na sua essência o poder da verdade, afirmando uma realidade que passa a ser a verdadeira, e portanto hegemônica. Quando uma foto nos toma por completo, os fatos que sabemos falsos podem nos levar a uma realidade superior, mais forte, mais penetrante, e decisivamente mais real do que a própria realidade. Somos guiados por artifícios e transportados na ilusão. E gostamos.

 

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Fotografia e Poder

Em época de dificuldades políticas, rixas ideológicas, ódio nas redes, onde cada lado acredita plenamente na sua opinião, proclamando-a verdade absoluta, devemos ter cuidado com o que lemos e vemos. Somos bombardeados em ritmo frenético por opiniões prontas, fotografias enquadradas, reportagens direcionadas e responsabilidades emolduradas. Os meios de comunicação nos passam, muitas vezes, verdades generalizadas que perigosamente criam estereótipos e manipulam os fatos para uma história única, uma história que interessa diretamente os detentores do poder.

 

Como demonstra a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi em seu ted sobre “O perigo da história única”.

 

Em termos gerais, é difícil definirmos o poder, pois ele não é palpável, se personifica de diferentes maneiras e se perpetua através das relações humanas. O que podemos tentar compreender é de que forma este poder é perpassado entre os homens. Todas as relações são, em maior ou menor grau, um jogo de poder e, onde houver poder, ele se exercerá sobre alguém.
De um lado temos os detentores do poder que trazem em si o argumento ético, e do outro os subjugados. As pessoas sempre exercem o poder por possuir “algo” que não temos através dos mais diversos argumentos: conhecimento e saber, força física, dinheiro, beleza… Isso os transforma em uma autoridade de difícil questionamento; é como se estivessem em um nível até então inatingível para os subjugados.

 

NÃO PODEMOS QUESTIONAR O QUE NÃO TEMOS OU AQUILO QUE NÃO SABEMOS.

 

O exercício do poder torna se mais grave ao percebemos que só aqueles que detêm o poder podem manipular os acontecimentos, criando uma única história e uma única verdade. É aí que mora o perigo! E este poder se torna tanto mais eficaz quanto menos for perceptível às nossas consciências. Os meios mediáticos são uma ótima forma de manipular pois implantam sorrateiramente seus interesses. A imagem, como um deles, é um eficiente veículo criador de desejos e sentimentos em prol de interesses ideológicos, políticos e econômicos.

 

Ao longo da nossa história, nacional e mundial, diversas fotografias foram usadas para apoiar um lado, uma suposta verdade. Como diz o filósofo e fundador da “School of Life”, Alain de Botton, no seu livro “Notícias: manual do usuário”, as mídias tem o “poder de ditar qual será a ideia que teremos das outras pessoas”.

 

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NÃO EXISTE UMA ÚNICA VERDADE.

Existe uma lenda indiana que conta a história de cinco cegos que de tanto ouvirem falar do majestoso elefante do príncipe Rajá, resolvem ir pessoalmente conhecê-lo. Um dos cegos ao segurar uma das presas do animal descreve a como uma lança. Outro pegando a tromba, define o animal como uma serpente; o terceiro ao tocar na perna do elefante diz ser como um tronco de árvore. Assim, cada um ao conhecer uma parte do elefante define-a segundo suas próprias impressões, pensando estar mais certo que o outro.

 

Tal como nesta lenda, somos cegos que conhecem apenas uma parte do grande elefante. Além de cegos, somos também prepotentes: pensamos que a nossa parte corresponde ao todo. Percebemos e compreendemos uma parte da verdade e concluímos, orgulhosamente, que apreendemos toda a verdade. Achamos ainda que isso nos defere algum poder.

 

SOMOS TOLOS.

A forma de fazer emergir a verdade é relativa, assim como a própria verdade é relativa. Ela não possui uma única forma e sim, várias formas, modelos e provas, misturadas e entrelaçadas de acordo com a formação cultural e o contexto histórico de cada sociedade. Sem citar todas as diferenças morais, intelectuais e psicológicas existentes entre os indivíduos. Nós, seres humanos, somos muito diversos uns dos outros.

Derradeiramente, não acho que a ideia seja de libertar a “verdade” de todo sistema de poder – o que seria quimérico na medida em que a própria verdade é poder – mas de desvincular o monopólio de uma verdade das formas de hegemonia (sociais, econômicas, culturais) no interior das quais ela funciona no momento.

 

TEMOS QUE GERAR CONHECIMENTO PARA PODER QUESTIONAR.

Ecoando com o que disse Chimamanda em seu TED de 2009, tão atual 7 anos depois, gerar mais histórias, e no nosso caso mais imagens, e sobretudo mais olhares, diversos e múltiplos, cria conhecimento e empatia e nos ajuda a perceber as diferentes versões de uma suposta verdade. Cito aqui dois exemplos de projetos multiplicadores de imagens:

 

  • No Brasil, o “Imagens do Povo” realizado nas favelas com o objetivo de democratizar a linguagem fotográfica formando fotógrafos que promovam de dentro para fora a cultura local. imagensdopovo.org.br

  • Em Ghana, “o MyPharm” realizado com 42 fazendeiros para ajuda-los a contar diretamente suas histórias e dificuldades, identificando ações para futuros projetos. photovoice.org/mypharm

E você, conhece algum outro projeto legal de fotografia que multiplique os discursos e desvele outras muitas verdades? Divida com a gente aqui nos comments.

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