Semana passada, a minha colaboração mensal no blog da Editora Subversos falou de ruínas em relação à série A última aventura de Romy Pocztaruk. Aqui no post resolvi abarcar outros muitos fotógrafos que retrataram as ruínas urbanas de nossa sociedade. Como somos facilmente fascinados pelos destroços do que um dia foram grandes marcos de nossas cidades, muitos artistas se interessaram e clicaram o que sobrou desse sonho grandioso de outrora.
As ruínas ficaram tão famosas nas mídias sociais, sobretudo no instagram, que ganharam expressão própria: “ruin porn”. É a beleza do caos, o prazer na destruição. Quase um movimento romântico contemporâneo. Mas independente dos modismos, as ruínas fotográficas e urbanas, podem nos ensinar muito sobre nós mesmos. O que um dia pensamos ser e como nos desenvolvemos, o que se perdeu, o que se ganhou. Nossas experiências com sistemas políticos e culturais.
Ruínas de shoppings, antigos templos consumistas que hoje perderam espaço para as compras online, ruínas de cidades operárias pelo mundo, substituídos por máquinas, ruínas de vidas, de sonhos, de ideais.
Ruínas de Detroit, Meffre e Marchand, 2005
Investigar o modo como as camadas temporais se imbricam nas ruínas urbanas, perpassa investigar como nós nos vemos e construímos nossos ideais: de país, de nação, de humanidade. A ruína nos leva ao cruzamento exato entre passado e presente, entre o que poderia ser e o que se imaginou ser, e o que de fato aconteceu.
A fotografia é a arte do olhar. Como o olho humano, a câmera fotográfica trabalha fundamentalmente da mesma maneira, ou seja, como uma câmara escura que apreende a energia luminosa, de acordo com algumas características técnicas, formando em seu interior uma imagem. O olho humano possui exatamente a mesma função, formando imagens a partir da luz e transmitindo-as através de impulsos ao cérebro. Por outro lado, assim como a fotografia, o olho humano recorta do mundo a sua visão pessoal e escolhe mostrar a sua edição subjetiva.
Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara – José Saramago
Fazendo um paralelo, a fotografia pode nos ensinar muito sobre a visão; essa que é um dos cinco sentidos do ser humano responsável por aprimorar a nossa percepção do mundo. Entre semelhanças e diferenças, o olhar fotográfico também pode nos levar a novas possibilidades de pensar e perceber o mundo, e a nós mesmos. Mas temos que olhar. Não basta querer enxergar com o olho esquerdo ou o direito, tem que abrir bem os dois olhos e observar ao redor.
O filósofo francês Gilles Deleuze considerava a nossa sociedade como a “civilização do clichê”, por um lado, porque as imagens em excesso produzidas hoje provocam uma banalização do que vemos e com isso não enxergamos mais e, por outro lado, pelo interesse político e econômico do poder constituído em distorcer o corpo imagético propagado. Nesses casos, a imagem deixa de ser visão para se transformar em instrumento de cegueira.
De repente, a realidade tornou-se indiferenciada a sua volta. – José Saramago
Mas arte não é cegueira. Fotografia é liberdade e reconciliação. É superar medos e abrir caminhos. A fotografia nos ajuda a tirar os óculos escuros e enxergar. É uma maneira de resistir, mostrando outros caminhos possíveis, outras realidades, e assim abrindo paradigmas. A arte coloca o dedo na ferida, questiona, faz mal, mas indica como podemos ser melhores do que somos hoje. Acredito que a fotografia orienta nosso olhar para quem não está nas redes sociais, para quem não tem espaço ou possa se retratar. A fotografia pode indicar a mudança, pode esclarecer a empatia, pode resistir e lutar.
O medo cega, disse a rapariga de óculos escuros. São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos. – José Saramago
A fotografia sempre discutiu os limites entre realidade vs ficção / verdade vs mentira. Com a sua proximidade ao objeto fotografado, a fotografia carregou durante muito tempo, e carrega ainda hoje, a fama de ser a mídia que registra o real.
Nos anos 70 e 80, muitos artistas problematizaram a representação realística da fotografia. A fotógrafa Cindy Sherman, por exemplo, nunca se contentou, em todo seu trabalho fotográfico, com a experiência direta da realidade mas com uma projeção dessa realidade. Sua obra está inserida em um mundo feito de imagens que remetem a outras imagens. Ela não quer representar o real, mas discuti-lo e reinventa-lo. Diferente da fotógrafa Diane Arbus, por exemplo, que trabalhava a foto com um viés muito mais analista e arquivista, como uma ponte entre o sujeito e o objeto.
Joan, Fontcuberta, Miracle of Cryofloration, 2002
Hoje, o debate entre real e falso está ultrapassado, nossa contemporaneidade discute o “mentir bem” e o “mentir mal”. Joan Fontcuberta é um fotógrafo, curador, escritor, teórico e ativista espanhol que trabalha os conceitos da imagem, numa tentativa menos de descrever o mundo e mais de critica-lo e repensa-lo. Fontcuberta está ciente do poder das imagens e de como elas são usadas como um instrumento de poder. Por isso, ressalta a importância da discussão e da educação visual.
A idéia é desafiar as disciplinas que se proclamam representantes do real – a botânica, a topologia, qualquer discurso científico, assim como a mídia, até a religião. Escolhi a fotografia porque era uma metáfora do poder. – Joan Fontcuberta
Assim como Cindy Sherman, Fontcuberta simula e joga com a suposta realidade fotográfica. Num movimento jocoso, que lembra a performance, ele simula realidades que dialogam com a falsidade da fotografia como reflexo da verdade externa. Em sua série Sputnik, ele trabalha a verdade da documentação histórica, e mostra imagens da missão do astronauta Ivan Istochinikov. Ivan foi um dos primeiros cosmonautas soviéticos; ele desapereceu porque seu voo Soyuz 2 foi um fracasso para as autoridades da época (1968). Nas imagens de Fontcuberta, o soviético aparece com seus colegas, em treinamento, prestes a entrar na cápsula, e o artista se pergunta porque o astronauta sumiu, como e quando? Contudo, o Ivan Istochinikov da série é na verdade o próprio Fontcuberta, que em um trabalho de fotomontagem coloca seu rosto nessas situações. Mais ainda, Ivan Istochinikov é a tradução russa de Joan Fontcuberta.
Mas porque a brincadeira? Para evidenciar a falsidade da mídia, e como somos enganados facilmente. Queremos acreditar. Acreditar é mais confortável do que desacreditar que implica em esforço e confronto. Recebemos passivamente as informações dos meios de comunicação e da internet porque não queremos gastar a enorme energia necessária para sermos céticos. A fotografia não é inocente, constrói realidades e discursos. Mas a realidade não existe sem nossa experiência.
A linda exposição de Albert Renger-Patzsch fica em cartaz no Jeu de Paume em Paris até janeiro de 2018. Fotógrafo de nome difícil e olhar suave, o alemão Albert participou do movimento da nova objetividade nos anos 20. Movimento pós guerra, que surgiu na Alemanha como resposta ao Expressionismo e seu subjetivismo, a Nova Objetividade queria trazer de volta um realismo nas artes.
“It’s important to see things the way they are.” (Otto Dix, pintor da Nova Objetividade)
Cobra, 1927
Na fotografia, esse movimento teve uma dimensão anti-pictorialista, querendo trazer a tona a objetividade da mídia fotográfica. Albert foi um grande nome a frente desse movimento, e conseguiu dentro da precisão do meio e suas caraterísticas miméticas, acrescentar um olhar belo as suas imagens. Sua identidade estética testemunha de um rigor técnico e formal que usa a camera para intensificar a nossa visão e consciência de realidade. Ele consegue trabalhar com o fundamental da fotografia para criar. Justamente por isso, por sua simplicidade e sobriedade, em um estilo quase documental, suas imagens são tão fortes.
Ruhr e Möhne, 1936
Sua retrospectiva em Paris, consegue abarcar suas fases e seus diferentes objetos de estudo: como as plantas, as paisagens alemãs, os objetos industrias e a arquitetura. São diferentes temas mas apenas um foco principal: o estudo da fotografia. Em suas pesquisas conceituais, Albert consegue conjugar a potencialidade criativa e artística da fotografia com seu lado técnico e mecânico.
Durante sua vida, lançou vários livros. O que mais me chamou atenção foi seu livro “O mundo é belo” de 1928. Numa representação realista do mundo, através de ângulos de visão criativos e inusitados, Albert nos apresenta monumentos, estruturas industrias, objetos, natureza, paisagens: o mundo de formas que ele descobriu. Um inventário universal e uma bela surpresa para os leitores. Mesmo entre duas guerras, as imagens de Albert parecem extremamente positivas, quase abstratas à realidade intensa daquela época, senão fosse por seu compromisso com a realidade.
O artista norueguês Per Barclay trabalha experimentando com fotografia e instalações. Suas instalações são pensadas como infinitas possibilidades imagéticas. Desde 1989, ele trabalha em torno de sua obra denominada “espaços de óleo” que consiste em surfaces planas de um líquido espalhado no chão de ambientes fechados. Na maioria das vezes o líquido utilizado é óleo preto, mas ele também já usou vinho, leite, sangue e água. A instalação é pensada em parceria com a fotografia, como um meio de confrontar o espaço através de outros pontos de vista.
Per Barclay, Hospital Matarazzo, SP, 2014
Barclay gosta de brincar com o espaço e o tempo. Suas instalações, e as fotografias decorrentes, não possuem parâmetros: seus pontos de vistas feitos através do reflexo do líquido transformam o lugar. O ambiente se inverte, o solo preto infinito absorve vertiginosamente o espaço ao seu redor e o espectador acaba sendo sugado. A instalação se funde aos contornos arquitetônicos e naturais, transformando-o e ao mesmo tempo sendo transformada. E é através da imagem fotográfica que muitas dessas novas relações são reveladas.
Per Barclay, Velha casa de barco, Noruega
O tempo é irreal e o espaço atemporal.
Seu trabalho lida com tensões internas derivadas dos contrastes que ele põe em jogo: reflexo e real, arquitetura e vazio, espaço fechado concreto e superfície líquida, negativo e positivo, ficção e realidade, equilíbrio e descontrole, abismo e planície. E os resultados mexem com nossas referências. Entramos através do espelho, e como Alice atravessamos ao outro lado da realidade, mais misteriosa e transformadora.