Fotografia e resistência!

Em 2018, a arte resiste, a fotografia resiste, o FotoRio Resiste, eu, você, e todo o Brasil tem que resistir!

 

Como muitos sabem, trabalho no Festival Internacional de Fotografia do Rio de Janeiro (FotoRio) há muitos anos. Estagiei, preguei quadros, medi paredes, montei exposições em inúmeros centros culturais da cidade maravilhosa. Também fiz traduções simultâneas, servi de guia e intérprete, enfim, qualquer motivo de ver e ouvir os fotógrafos vindo do Brasil e do mundo era uma boa desculpa para mim. Aprendi muito e continuo aprendendo todos os dias.

 

Pedro Kuperman, Jardim de Maria, 2015, Rio de Janeiro

 

Os anos passaram, o festival teve alguns patrocínios durante um tempo (não grandes, mas interessantes em relação a nossa realidade) e de uns anos para cá é evidente a precariedade cada vez maior de toda a comunidade artística: começando pelos centros culturais e instituições e passando pelos artistas, produtores e o próprio festival. A infra-estrutura está cada vez mais capenga, o dinheiro escasso, os recursos humanos minguantes, a paciência pequena e as ideias retrógradas. É verdade que o efeito positivo disso tudo, muitas vezes, é a originalidade e o companheirismo. Mas vamos combinar que anos de trabalho e todo um investimento pessoal e financeiro da parte de todos não pode resultar unicamente em solidariedade.

 

E esse ano as coisas conseguiram piorar. Isso é óbvio para todos, ainda mais para os que vivem na cidade do Rio de Janeiro. Mas o óbvio não pode ser banal. Precisamos resistir: cada um na sua área, na sua luta, mas com alguma coisa em comum. O FotoRio 2018 não vai acontecer por causa da falta de editais para financiamento público e da falta de transparência na gestão cultural, que inclui até censura direta. Mas diante dessa onda de depressão frente a nossa realidade, fotógrafos e associações de todo Brasil se juntaram para não deixar a peteca cair. Quanto maior a crise política, econômica e cultural, maior a necessidade de uma resposta clara e direta: não estamos de acordo. Queremos mudar. Assim surgiu o FotoRio Resiste.

 

Walter Carvalho, Pássaros, Nova Iorque

 

“Nossa época obriga a tomar partido.” – Chimamanda Ngozi Adichie

 

O FotoRio Resiste acontecerá em agosto de 2018, tem por lema “Fotografia e Cidadania” e é coordenado por uma comissão composta por: Adriana Medeiros, Ioana Mello, Marcella Marer, Milton Guran, Nana Moraes, Paulo Marcos, Rogério Reis e Thomas Valentin. Queremos colocar em debate a gestão republicana das verbas e equipamentos culturais em espaços geridos pelos próprios fotógrafos ou em galerias e espaços alternativos e independentes. Nenhum espaço público será ocupado, à exceção de outros espaços de resistência, como a UERJ. O desejo é ocupar a rua, os muros, as ideias com arte, cidadania e liberdade.

 

Obrigada por todos que já se uniram à luta. E vamos juntos.

 

 

*Todos estão convidados hoje, dia 06 de março de 2018 às 19h, para uma exposição na Villa Aymoré (RJ) que marca o lançamento oficial do FotoRio Resiste. Com a inauguração, o FotoRio Resiste lança também seu financiamento coletivo para resistirmos juntos: benfeitoria.com/fotorioresiste

 

 

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No limite da vida

Nesse mês de fevereiro abre a exposição Another Kind of Life – photography of the margins (Outro tipo de vida – fotografia das fronteiras) em Londres, no Barbican Centre. A exposição reflete uma visão rica da vida de indivíduos e comunidades que operam às margens da sociedade. Seja na Europa, EUA, América Latina ou Índia, as imagens procuram mostrar uma representação mais autêntica de comunidades que são privadas de seus direitos básicos, quanto mais ainda do direito de serem retratadas honestamente. A lente desses fotógrafos, impulsionados por motivações pessoais e políticas, tenta construir uma identidade que mostra a complexidade e diversidade do mundo e da humanidade.

 

O Barbican Centre foi construído após a Segunda Guerra Mundial numa área londrina extremamente bombardeada pelos nazistas. Com uma visão utópica sobre o futuro, os 3 arquitetos – Chamberlin, Powell e Bon – pensaram em um prédio moderno, de grande escala e proporções internacionais. Depois de 30 anos entre o projeto e a abertura, o enorme centro de 190.000 m3 foi inaugurado em 1982 pela Rainha. O prédio foi considerado um marco arquitetônico do estilo brutalista e conta com uma sala de concertos de 2000 lugares, um teatro para 1.300 pessoas, uma galeria de arte, uma biblioteca, a escola de música e de teatro Guildhall, cinemas, áreas abertas, estacionamento e um parque.

 

 

Evelyn, La Palmera, Santiago, da série As maças de Adão, 1983, Paz Errázuriz

 

Fotografia de rua, fotojornalismo, retratos, fotografia documental, vários estilos nos mostram, na extensão das salas de exposição, as diversas comunidades perseguidas ao longo dos anos, pelo mundo. Mais do que isso, 20 fotógrafos expõem obras onde essa contracultura é apresentada como agente de mudança. Rebeldes românticos, viciados, foras da lei, sobreviventes, indivíduos economicamente despossuídos, transgêneros e todos aqueles que aborrecem abertamente a convenção social, são reconhecidos para além do clichê. A exposição consagra a diferença e a empatia, ao invés de ridiculariza-la.

 

Paz Errazuriz, Pieter Hugo, Mary Ellen Mark, Larry Clark, Dayanita Singh, entre outros, nos mostram gangues de rua, homens vestidos de mulher em Nova Jersey nos anos 60, travestis da era Pinochet, mafiosos japoneses, etc. O tema é vasto e podia ser facilmente apresentado de maneira estereotipada ou voyeurística, unicamente para matar a curiosidade do público. Não é o caso. Inserida no programa do Barbican de 2018, A arte de mudar, a exposição aborda como artistas respondem a questões vitais do mundo, como feminismo, direitos humanos, gênero, mudanças climáticas… É um olhar sobre o papel do artista ao retratar subculturas diante de incertezas políticas e econômicas globais. Como são representados, nesse caso visualmente, pessoas atualmente sub-representadas? Venha conferir. A exposição fica em cartaz até fim de maio, nos lembrando não apenas do progresso que fizemos até hoje em relação ao outro, ao diferente, mas do trabalho árduo que ainda precisa ser feito.

 

Igor Palmin, da série vagabundos encantados, USSR, 1977

 

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