Fotografia é ausência. O ato de fotografar vem com várias camadas de ausência, do espectador na imagem, do objeto fotografado, do tempo em que o objeto foi fotografado… Fotografar lida com o referente, um objeto que esteve lá mas que agora é ausência, como entendemos, revelando apenas distância: entre o espectador e o que ele vê.

 

Em seu livro 35 da História Naturalis, Plínio, o filósofo, nos conta a história da filha de um oleiro de Sicion que estava apaixonada por um rapaz que repentinamente teve de partir para uma longa viagem. Na cena de despedida, os dois enamorados estão em um quarto escuro, iluminados apenas por uma vela, ou um fogo, que projeta a sombra dos jovens na parede. Para guardar a memória do amante e seu traço físico atual, a moça desenha com carvão a silhueta do amado para fixar a imagem daquele que está ali agora, mas logo estará ausente. Percebemos que essa fábula sobre a origem da imagem nos remete ao referente: a sombra é índice, e essa figura desenhada com carvão é seu referente, literalmente seu traço.

 

Ausência do ser amado.

 

 

Em seu último trabalho,  “Ausência”, a fotógrafa Nana Moraes nos coloca em contato com histórias de algumas presas do Presídio Nelson Hungria, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu. Segundo capítulo de sua trilogia “DesAmadas” sobre mulheres marginalizadas (o primeiro foi “Andorinha” sobre prostitutas da Dutra) a fotografa retrata o difícil tema da maternidade nas prisões.  Além das imagens que faz, Nana conta as histórias dessas mães encarceradas longe de seus filhos, histórias que perpassam todos os níveis de ausência: do ser amado, da alma, da vida, da sociedade, do céu, do amor.

 

Com sua câmera, Nana capta as presas, suas celas, seu ambiente na prisão e também suas famílias do outro lado do muro. Mas ela vai além das imagens e cria um projeto de comunicação através da troca de cartas entre as detentas e suas famílias. O resultado final são imagens sensíveis e frases comoventes dessas duas vidas: de um lado as detentas, do outro seus filhos.  Com suas próprias mãos, a fotógrafa, agora bordadeira, também costura (12) colchas e retalhos das imagens, palavras e emoções recolhidas. Entre saudade e ausência, ela vai costurando no tempo.

 

“Quis fazer eu mesma todo o trabalho de costura pois ninguém nunca fez nada para essas mulheres.” – Nana Moraes

 

Assim como a própria mídia fotográfica, Nana reverte a ausência e preenche os relatos femininos, os amores despedaçados. A fotógrafa costura cada fenda e cada machucado, e de imagem em imagem, traça um novo caminho, mais pleno, para as detentas. Ao reverter a palavra ausência em plenitude, a fotógrafa dá uma nova chance a cada presa retratada e a cada espectador que embarca nesse projeto.

 

 

*A exposição “Ausência” de Nana Moraes fica em cartaz no Centro Cultural Correios, Rio de Janeiro, até dia 06 de agosto de 2017. Dia 29 de julho, ela fará uma mesa redonda sobre o projeto, às 16 hrs, no mesmo local.

 

 

 

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