A fotografia sempre dialogou com a morte, pelo seu estreitamento com o tempo, com a memória e com o passado.  Existe uma história que conta que muitos indígenas acreditavam que o aparelho fotográfico aprisionava a alma da pessoa fotografada, de uma certa maneira, matando sua essência.

 

A fotografia, desde o tempo das lanternas mágicas passando pela câmera obscura, utiliza um aparelho que aproxima o científico do mágico ao introduzir, sempre (através da técnica), luz na escuridão. Ao trabalhar com a luz como essência, o impulso fotográfico estreita sua ligação com o sagrado. O teórico americano Kerry Brougher reforça essa idéia ao lembrar que o homem tenta eternamente iluminar a escuridão, desde o mito da caverna de Platão, numa tentativa de talvez superar as restrições do tempo, do espaço, da memória e até mesmo da morte.

 

Como dizia Roland Barthes, “(…) a fotografia tem alguma coisa a ver com a ressurreição (…).” BARTHES, 1984.

 

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Fotografamos eventos, pessoas, memórias com o intuito de imortalizá-los e superar a morte daquele objeto fotografado. Guardamos álbuns, porta retratos e cortiças para voltar àquele momento querido sempre que nossos olhos cruzam a imagem. Por outro lado, aquela imagem que queremos imortalizar, no fundo morreu. Morreu na hora que disparamos o flash. Morreu porque não somos mais os mesmos, a paisagem mudou, a vida se transformou, a emoção acabou. A alma foi aprisionada.

 

Como tanto sabemos, a fotografia é considerada a mídia do instantâneo por excelência. Ela jamais deixou de ser pensada pela problemática do tempo. No senso geral, a fotografia é tida como a mumificação do tempo: “de um tempo evolutivo a um tempo petrificado, do movimento à imobilidade, do mundo dos vivos ao reino dos mortos, da luz às trevas, da carne à pedra” DUBOIS, 1993. No entanto, a fotografia não é tão preta e branca assim, existe em seus muitos tons de cinza. Na fotografia há muitas sombras entre a luz e as trevas, entre o reino dos vivos e dos mortos, mas “se não fosse pelas sombras, não haveria beleza” TANIZAKI, 2006. A fotografia não está atrelada tão diretamente ao tempo morto ou objeto morto, ela não imobiliza o instante, ou se encerra em um único olhar, existem muitos caminhos a serem percorridos, detalhes a serem delineados.

 

Além disso, a fotografia tem o privilégio de reavivar, com particular vigor, lembranças esquecidas nas nossas mentes, perdidas e enterradas. Ao ressuscitar essas lembranças, pela luz e pelo olhar, a fotografia nos leva a refletir sobre esse passado “aprisionado” na imagem a partir de outros horizontes vivênciais adquiridos no meio tempo, e que se prolongam no presente para um futuro.

One thought on “Fotografia, luz e morte

  1. “Morreu porque não somos mais os mesmos, a paisagem mudou, a vida se transformou, a emoção acabou.”

    Amei esse texto! A abordagem da constante transformação e da tentativa da fotografia de “congelar” os momentos foi fantástica! E as fotos, maravilhosas!!

    Parabéns, Iô!!

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