Cindy Sherman e o instagram

Já falamos da Cindy Sherman aqui no blog. Fotógrafa americana que iniciou a carreira nos anos 70 e ainda está em atividade, Sherman é mais conhecida por seus auto-retratos conceituais extremamente críticos da sociedade, que chamam atenção para o papel da mulher na mídia, e da mulher diante do olhar masculino. Ela tem séries ícones como suas representações de still de cinema, onde ela se retrata sozinha em estúdio, quase irreconhecível maquiada e fantasiada, como uma estrela de alguma cena de cinema em preto e branco.

 

Cindy Sherman, Untitled Film still #81, 1980

 

Apontando a câmera para si mesma, Cindy Sherman assume o papel da mocinha de Hollywood e com isso tenta chamar a atenção do público para inúmeras questões, como a poderosa maquinaria da fantasia e da maquiagem que esconde as imagens que circulam em nossa insana cultura de massa do “conectado”. Ou ainda, o desejo sexual e a dominação, a modelagem de uma auto-identidade de acordo com a cultura de massa, essas são algumas críticas da extensa série de autorretratos de Sherman. O trabalho de Sherman é uma conversa direta com a nossa sociedade de consumo intenso e de proliferação da imagem.

 

Sendo assim, nada mais óbvio do que encontrarmos essa fotógrafa na nova mídia social de predileção do mercado de arte: o instagram. Diferente de seu extenso cuidado com as fotos em estúdio, o instagram de Sherman é mais simples, com imagens do dia a dia, banais, e muitos efeitos dos aplicativos de celular Facetune e Perfect365. Usando de muito exagero, Sherman afirma em sua conta online que nunca somos nós em nossos selfies. Os papéis, os personagens e as aparências que tomamos nas mídias sociais somos nós mesmos que impomos e realizamos, nos transformando. Mas a maior ironia disso tudo é que nem percebemos. E os disfarces mais perigosos são os sorrisos forçados, as bocas falsificadas que agora proliferam nas mídias sociais, muitas vezes aumentadas em cirurgias exageradamente reais. 

 

Cindy Sherman, Instagram, 2017

 

As imagens são brincadeiras com a própria mídia, com sua rapidez e praticidade, sendo assim não tem a mesma dedicação que seus trabalhos anteriores. Nem sei se podemos chamar a conta do instagram de Sherman de trabalhos, talvez de estudos, ou performances. Como toda mídia social, ela também posta obras de exposições que visita, ambientes aleatórios, enfim, toques de sua vida pessoal. (o instagram me) “Parece tão vulgar”, disse Sherman em uma entrevista. De uma certa maneira, diria que ela mudou de idéia, porém, por outro lado, algo de seu julgamento inicial perdura em seus selfies distorcidos e grotescos.

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