Fotografia Contemporânea e um olhar retrospectivo do ano de 2017

Em período de transição de ano, quem não fica pensando na vida? O que passou e o que virá. Me viro para a fotografia, num balanço do que vimos, pensamos, discutimos e questionamos e as perspectivas para o próximo ano. Li na revista do festival Unseen de fotografia que o presente sempre se acha especial. Acha que seus problemas e suas oportunidades são fundamentalmente diferentes e maiores do que os que enfrentou no passado. Diria que talvez seja uma questão de sobrevivência pensar assim, mas o presente não é tão diferente do passado, e existe uma enorme conexão. Mais do que isso, o passado é muito mais rico do que creditamos e mais contemporâneo do que afirmamos.

 

Vik Muniz, Audrey Hepburn em Diamantes, 2005

 

Se você olha para uma fotografia ou se conecta com qualquer tipo de projeto fotográfico – livro, revista, exposição ou site – e significa algo para você, então é contemporâneo. Não importa se é de 1839, 1967 ou de semana passada. – David Campany

 

Em muitos festivais que participamos e feiras que observamos, a fotografia hoje sofre com a economia de mercado que demanda retorno rápido, dificultando a aposta em novos talentos e imagens originais e recolocando em circulação unicamente o certeiro: seja a imagem clássica ou a imagem contemporânea que vendeu. Esse mercado, com seu medo de diversificar demais, fica estagnado em nomenclaturas e modismos: o que estará “bombando” em 2018?

 

Barry Lategan, 1966, Twiggy

 

Mas cuidado! Olhe para além do óbvio, olhe para além do último lançamento, olhe para além das imagens ícones. A fotografia dialoga com todas as suas imagens ao longo de sua trajetória, com sua história, com a cultura global e sobretudo com narrativas subjetivas e pessoais. A fotografia não é certeza ou afirmação, é apenas tentativa. Assim como a vida.

 

Para 2018, desejo a todos um novo ano de resistência conjunta em novas aventuras visuais.

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Paris Photo e o incrível universo da maior feira de fotografia

A feira de fotografia Paris Photo é o acontecimento incontornável do mercado de fotografia. Primeira feira de arte dedicada exclusivamente ao meio fotográfico, semana passada o Paris Photo apresentou sua 21a edição. Desde 1997, ela acontece anualmente em espaços prestigiosos, primeiramente no Carrousel du Louvre e agora no enorme espaço do Grand Palais. Ano passado, em 4 dias de feira, teve mais de 50 mil visitantes. Desde 2013, ela se aventurou no novo mundo e abriu uma filial em Los Angeles, nos EUA, para criar mais vínculo com o grande mercado americano como um todo. O sucesso das duas feiras é inquestionável.

 

 

 

Esse ano a feira apresentou mais de 180 galerias e editoras de livros de fotografia, de uns 30 países, que apresentaram trabalhos fotográficos tanto modernos quando contemporâneos. Um grande panorama da história da fotografia e do que anda se clicando (e vendo) pelo mundo. Pelo menos essa é a ideia, infelizmente a prática de uma grande feira de arte é um pouco diferente da teoria. Sem tirar o mérito de ser o grande encontro mundial de fotógrafos, galeristas e colecionadores de fotografia, o Paris Photo caiu em sua própria armadilha.

 

Ao expandir-se e tornar-se a maior feira de fotografia do mercado, o Paris Photo hoje funciona como um grande centro comercial. Com o custo alto para produção e participação da feira, a pressão e a correria, as galerias não conseguem inovar, nem investir em originalidade. Resultado: vemos muito do mesmo – o que vende – ou obras apenas para chamar a atenção. É obvia a crescente fadiga por parte dos galeristas, artistas que acabam tendo que produzir ao invés de criar, e público.

 

 

Com esse crescente enfoque financeiro nas feiras em geral, ainda temos o efeito “evento”, que tanto importa nos dias de hoje. Esse ano a cantora Patti Smith fez a curadoria da Gagosian (além de apresentar suas próprias imagens) e Karl Lagerfeld foi a figura da feira para comemorar os vips, fazendo tour selecionados e escolhendo dentre as galerias os trabalhos que mais lhe agradava. É sempre assim, de um lado os colecionadores que querem as melhores festas, as salas vips e o champagne, do outro, o público que quer ver os rostos famosos, as roupas da moda, as assinaturas vedetes… E no meio disso tudo, ostentação, futilidade, dinheiro e pouca diversidade e assombro com a arte.

 

Mas a feira Paris Photo 2017 teve algumas pérolas escondidas. As casas de edição estavam originais, e aqui penso na editora mexicana RM e no único stand brasileiro dividido entre as editoras Livraria Madalena e Bazar do Tempo. Fotolivros que eram trabalhos por si só, e não mera ilustração das fotografias. Grandes nomes da fotografia, menos midiáticos, estavam expostos em algumas galerias, como Joel Peter Witkin, Dora Maar ou Georges Rousse. De novidades, eu descobri os retratos e naturezas mortas contemporâneas de Olivier Richon, o caos organizado de Marja Teeuwen, o russo modernista Boris Ignatovich e a retratista Andrea Torres. Afinal, entre galerias asiáticas, latinas, americanas, européias e africanas, as descobertas existem.

 

Marja Teeunew, 2010

 

 

Andreas Torres, The Unknow

 

 

Olivier Richon, 2013
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