A representação do negro ao longo da história da fotografia

Essa foto de Tinko Czetwertynski apareceu no meu feed por acaso, como acontece normalmente no incrível mundo do facebook. Mas diferente de tantas besteiras que aparecem, essa imagem me fez parar e pensar: como a fotografia vem representando o negro ao longo dos anos?

 

Pelas lentes de dois fotógrafos europeus, Augusto Stahl e Henrique Klumb, que vieram para o Brasil com a família real, encontramos imagens de negros datadas de 1865. São imagens mais antigas que o ato histórico da abolição da escravidão em 13 de maio de 1888.

 

Antes deles, pintores, desenhistas e cientistas, também europeus, como Debret e Louis Agassiz,  já haviam retratados os negros, mas de uma maneira ora ligada à proporção dos corpos e feições físicas, ora ligada ao exotismo e romantismo do olhar colonial.

 

Nesta trajetória do negro enquanto modelo de representação, pôde-se constatar que estamos diante de cenas construídas onde o negro se viu embelezado por uns e animalizado por outros. -Boris Kossoy

 

Os dois fotojornalistas seriam os primeiros que tentaram sair dessa visão curiosa de colonizador. Com uma visão mais objetiva e ligada ao presente histórico, os dois iriam retratar mais realisticamente e criticamente a situação de opressão e miséria vivida pelo negro escravo. Em meados do século XIX, seria uma primeira tentativa de se interrogar sobre os problemas sociais e econômicos do Brasil escravocrata.

 

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Auguste Stahl – 1865

 

 

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São imagens que mostram o olhar triste, as cicatrizes, a crueldade no trato com o escravo. Stahl e Klumb retratam o cotidiano e o trabalho duro da cidade em imagens roubadas, não pousadas e sem a presença da fauna e flora brasileiras  (tão características do ambiente exótico, romântico e montado em que eram retratados anteriormente os escravos). As imagens dos dois fotojornalistas são feitas para criticar a sociedade branca, materializar o cotidiano do negro e possibilitar uma visão mais realista do trabalhador oprimido e de sua sociedade escravocrata.

 

 

Por um outro lado, a fotografia também demorou no plano tecnológico a dar espaço à representação negra. Lorna Roth explica em seu artigo na revista Zum que até a década de 1990 os laboratórios de fotoprocessamento da Kodak não tinham uma boa calibragem (nem instruções) para a impressão colorida de peles mais escuras. O padrão de balanceamento de cores para impressão era medido a partir de mulheres brancas, os cartões Shirley, numa espécie de racismo tecnológico.

 

As Shirleys atravessaram décadas e continentes, definindo e balizando de maneira estreita as tonalidades de cor de pele nas imagens fotográficas, e transmitindo uma mensagem social e psicológica sutil sobre a dominância da pele branca. Representam, ademais, uma beleza e uma estética de gênero euro-ocidental que correspondia, na época em que foram criadas, à noção popular masculina da aparência feminina ideal. -Lorna Roth

 

Os anos passaram, e em 2016, vejo a foto inicial de Tinko, e penso que ainda não estamos muito longe do século XIX. Não, não somos mais escravocratas, sim, avançamos muito nos diretos raciais e na tecnologia, mas uma foto como esta ainda causa um certo estranhamento, evidenciando os presentes problemas sociais e econômicos do Brasil.

Simbolicamente, vale ressaltar que a modelo branca vestida de servente no meio da foto é um membro da família real brasileira.

 

 

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Rio 2016, a emoção do esporte na fotografia

Nada melhor do que uma olimpíada, no seu país, para inspirar a pensar a relação da fotografia com o esporte. Aquele instante decisivo do movimento, da quebra do recorde, da superação da física, da emoção do atleta e da torcida.

 

É bem verdade que a famosa expressão “instante decisivo”, do fotojornalista francês Cartier-Bresson, não se referia à fotografia esportiva mas à foto documental. Mas essa expressão de alguma maneira faz alusão à essência da fotografia esportiva: não forçada, fluída e atenta ao momento de equilíbrio que pode acontecer diante das lentes.

 

O fotógrafo trabalha em uníssono com o movimento, como se este fosse o desdobramento natural da forma, como a vida se revela. No entanto, dentro do movimento existe um instante no qual todos os elementos que se movem ficam em equilíbrio. A fotografia deve intervir neste instante, tornando o equilíbrio imóvel. – Henry Cartier-Bresson

 

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 Florida, 1996, David Burnett

 

O fotógrafo americano David Burnett participou de todas as olimpíadas desde 1984, e esse ano ele não perdeu os jogos no Rio de Janeiro. Ele não clica o flagrante “medalha de ouro”, como ele mesmo explica, mas momentos mais suaves. De ângulos menos convencionais, usando uma câmera analógica, Burnett se interessa pelos detalhes, instantes menos definitivos para medalhas mas marcantes para o olhar. O que ele faz, há oito olimpíadas, é experimentar, sair do óbvio e nos surpreender com a impressionante força, leveza e estética do esporte. Momentos que não são mostrados na televisão, nem nos jornais, e que nosso olhar de torcedor muita vezes não presta a devida atenção.

 

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Rio, 2016, David Burnett

 

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Barcelona, 1992, David Burnett

 

Outros fotógrafos escolhem ainda uma outra perspectiva sobre o esporte, como Amy Elkins. Ela fotografa jogadores de rúgbi logo depois de um jogo, mostrando o lado psicológico de um esporte agressivo, a “elegante violência” do rúgbi, a masculinidade exacerbada e sua vulnerabilidade. São fotos posadas, extraídas do ambiente clássico do jogo mas não menos interessantes ou representativas do esporte em questão. Independente do fotógrafo ou da modalidade, a fotografia aliada ao esporte pode contar várias histórias, inspirar, refletir e sempre nos surpreender.

 

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Amy Elkins

 

E você, esteve nas olimpíadas do Rio? Tirou alguma foto legal? Divide com a gente nos comentários abaixo.

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Fotografia de comida, #Pornfood

Comer não é um hábito solitário. Muito pelo contrário, comer, na nossa sociedade, une as pessoas. O fogo, quando descoberto, propiciou a socialização, e hoje, ao redor da mesa, continuamos socializando. Em todo tipo de evento, dividimos as refeições.

 

A comida sempre esteve muito ligada a cerimônias religiosas, rituais de passagem, onde valores culturais são transmitidos e relações afetivas reforçadas. A comida é mais do que apenas um alimento para sobreviver, a comida é também um abraço, um carinho, um conforto, um prazer. Comemos para celebrar, chorar, fechar um negócio…

 

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As representações da comida, ao longo da história, sempre abrangeram um conjunto de interpretações, ideias, símbolos e comportamentos de diferentes grupos e pessoas.

 

A comida gera significado cultural e social.

 

No mundo online de hoje, nada mais normal que a representação da comida seja popular entre todos os usuários da internet. Comer tem uma representação simbólica que todos querem transmitir. Além disso, comida é meio de prazer e desejo. Ou seja, as fotos de comida no web estão muito relacionadas a uma transmissão dessas emoções, e também, claro, de status, sucesso, riqueza e exotismo.

 

Mas há quem torça o nariz.

 

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Desde as grandes pinturas renascentistas, no século XV, os grandes banquetes e seus pratos já eram representados na mídia disponível da época, a pintura. E todos com “filtros” de luz e cor para dar um ar mais apetitoso. Um estudo feito pela universidade de Cornell – 500 anos de #pornfood – mostra que em 500 anos de representação gastronômica sempre foi a comida mais cara e mais exótica a mais retratada. São o aspagos, a lagosta, o camarão, o abacaxi (fruta exótica para as terras europeias da Renascença) que se aglomeravam nos pratos pintados de nossos antepassados. Nada da comida rotineira do cidadão comum, como o frango e a batata, mas refeições que transmitiam símbolos sociais e status econômico. Muito parecido com as fotos e # do nosso atual instagram. Entre os pratos do alex attala ou as fotos de frutos do mar e drinks extravagantes na praia, não estamos tão distantes dos pintores renascentistas.

 

Não somos mais narcisistas, fúteis ou extremistas. A representação da comida, e toda a simbologia que a acompanha faz parte da nossa história.

 

 

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A família brasileira ao longo dos anos

Estreou semana passada na galeria BNDES, no Rio, a exposição “Retratos da família Brasileira” de 1850 a 1960. São fotos antigas, preciosas pela história que carregam da nossa cultura e muito interessantes de observar. Cópias, em grande maioria originais, do curador José Inácio Parente, narram a história da fotografia no Brasil e dão uma boa mostra da nossa tradicional família brasileira.

Mas o marcante mesmo é como a organização familiar mudou tanto desde 1850! E o que não falta são motivos históricos: os avanços tecnológicos que possibilitaram uma família sem a necessidade do coito, o advento da pílula, a emancipação da mulher no século 20, as mudanças econômicas desde a Revolução Industrial, o aumento da urbanização, o advento da psicanálise…. Enfim, o que é certo é que a família hoje mudou, e muito. Mas e a representação imagética da família, mudou?

 

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 Imagem da exposição “Retratos da família Brasileira”

 

Hoje não se pode mais julgar se as pessoas são da mesma família só porque se parecem ou não. De repente, um cara japonês e uma mulher loura podem ter um filho negro. (“Nomes do amor”)

 

Pensando nesse enorme tabu que ainda existe diante das novas organizações familiares, a fotógrafa Simone Rodrigues lançou o livro “Nomes do amor – o amor que ousa dizer seu nome”. São retratos e depoimentos de casais LGBT que tem uma relação estável de mais de 2 anos. Alguns adotaram filhos, outros não; não importa, o que importa é que todos formam uma família.

 

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Weykman e Rogério, Anna Cláudia, Juliana, Luiz Fernando, Maria Vitória

 

Entrando na sala de estar dessas famílias, o leitor percebe que não existe nenhum fantasma escondido embaixo do sofá. Muito menos plumas e paetês. As fotos e histórias do livro desmitificam a imagem caricatural e errônea que muitas pessoas ainda tem da família composta por pessoas do mesmo sexo. Dialogando com a história da fotografia clássica de família – aquela da exposição em cartaz no BNDES – as famílias posam diante de uma antiga camera analógica hasselblad. O que vemos é uma outra representação da família brasileira, mas que no fundo nem é tão diferente assim. São imagens de casas, salas, sorrisos, crianças e pais comuns, simples e realistas.

 

“O amor é comum, o afeto é comum”.

 

Os casais homoafetivos não são uma novidade do século 21, eles sempre existiram, porém em uma posição bem mais marginal, obrigados a se esconder. Hoje, exigindo seus direitos e se engajando, esses casais se tornam protagonistas. Protagonistas em suas histórias e em nossas histórias também, escrevendo novos capítulos no direito, nas religiões, na fotografia, na arte e em nossas tão ostensivas “verdades”. As fotografias de Simone Rodrigues ajudam a criar uma ponte necessária para o conhecimento e o diálogo.

 

Para alguns, aceitar uma nova leitura de mundo pode ser insuportável, pois os obriga a repensar, ou mesmo abandonar, tudo aquilo que até então era dito como “natural” e “imutável” e que servia de referência. Evidencia-se, assim, o caráter imaginário de toda verdade, provocando o retorno dos eternos questionamentos: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, o que nos constitui como sujeitos…

 

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Marah e Samantha

 

O projeto “Nomes do Amor” começou no Rio de Janeiro mas quer se estender por todo o país, pensando na importância dessa nova representação imagética da família brasileira.

 

A exposição “Retratos da família Brasileira” fica em cartaz na galeria do BNDES, até 09 de setembro na Av. República do Chile, 100, das 10h às 19h.

http://www.fotorio.fot.br/pt_br/2016/exposicao/1895/retratos-da-familia-brasileira

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Algumas dicas de outros sites que também pensam a fotografia

Alguma pessoas começaram a me pedir dicas de outros sites que também discutissem fotografia de uma maneira mais crítica. Sigo várias publicações, independentes, pelo Brasil e pelo mundo, que pensam a fotografia de maneira original, para além do clichê e das dicas de photoshop. Segue uma lista com as minhas indicações principais.

 

No Brasil:

 

  • Icônica – 5 teóricos, pesquisadores, professores do Rio e de São Paulo, que discutem sobre fotografia e cultura. Eles também disponibilizam um espaço, chamado “Paragem”, para a publicação de projetos de jovens artistas em qualquer mídia que dialogue com a fotografia. http://www.iconica.com.br/site/

 

  • FotoPlus – enorme base de dados coletada e disponibilizada com muita paciência e minúcia pelo pesquisador Ricardo Mendes. É possível pesquisar sobre tudo referente a fotografia: eventos, exposições, artigos, catálogos, além de outros links e um espaço dedicado ao teórico Vilem Flusser. http://www.fotoplus.com/

 

  • 7fotografia – site de 5 mulheres que pensam a imagem fora da zona de conforto e do lugar comum. O site engloba entrevistas, dicas de exposições, eventos e concursos, teoria fotográfica, e o meu favorito “olhando para sempre” que escolhe uma imagem específica para olhar para sempre. http://www.7fotografia.com.br

 

A busca da identidade é um norte, é o que define, de forma comum, quase toda a construção humana. Caminhar para encontrar, entender, aquilo que se é.

 

  • Olhavê – site criado em 2007 por um casal de Recife que explora bem a fotografia com originalidade, inteligência e em todos os seus aspectos. Além de textos teóricos, perfis de fotógrafos, o site tem várias seções criativas como “a foto que eu queria ter feito”, “mostre seu raw” sobre o processo de tratamento de imagens e “foto guardada” sobre antigas fotos esquecidas em alguma gaveta. http://olhave.com.br

 

 

  • Revista Zum – revista do IMS, publicada e online, que apresenta novos trabalhos, novos artistas e discorre sobre diferentes assuntos fotográficos. http://revistazum.com.br

 

Na Europa:

 

 

  • Still Searching – blog em inglês mediado pelo Fotomuseum Winterhur na Suiça que fala sobre teoria visual. O blog é “dado” a 6 bloggers por ano que ficam responsáveis pelos posts durante 6 semanas com total liberdade. http://blog.fotomuseum.ch

 

  • Regarder, voir – podcast francês do programa da rádio France Inter que parte da premissa de “ver” uma imagem através da fala. Com uma duração de um pouco mais de 40 minutos, a apresentadora Brigitte Patient discorre sobre fotógrafos e suas motivações, livros de fotografia… https://www.franceinter.fr/emissions/regardez-voir?p=3

 

 

Espero que a discussão do meio fotográfico só aumente entre todos nós.

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