Não me leve a mal hoje é Carnaval

Mas é Carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar
Deixa o barco correr
Deixa o dia raiar
Que hoje eu sou da maneira
Que você me quer
O que você pedir, eu lhe dou
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser

– Chico Buarque

 

 

Não poderia deixar de associar a fotografia ao Carnaval brasileiro. Na avenida, no trio elétrico, nas ruas, hoje ou nas últimas décadas, a fotografia se associou de diversas maneiras com esse evento: ora documento de uma história em comum que todos temos, ora foto jornalística para se espalhar pelo mundo, ora experimental. De uma maneira ou de outra, a fotografia desvela as cores, as particularidades e o fascínio de muitos foliões por essa festa.

 

Seguem algumas imagens do Carnaval brasileiro pelas lentes de grandes fotógrafos.

 

Rogério Reis, Na lona

 

Lambe Lambe, Pedro Esteban, 2012

 

Bina Fonyat

 

Pierre Verger, Salvador

 

Walter Firmo

 

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Fotografia: entre memória e esquecimento

Último post do mês e resolvi continuar no tema da memória, mas dessa vez a relacionando ao esquecimento. Para lembrar é preciso esquecer. O sentido que se deseja dar à própria vida não é dado a partir do todo, mas através da seleção de certos detalhes relevantes para o que se quer criar. Não devemos tratar de maneira negativa o esquecimento, muito pelo contrário, lembrar de tudo é que seria caótico, como nos descreve Borges através de seu personagem Funes, o Memorioso.

 

Suspeito, contudo, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos. – Jorge Luís Borges

 

Rosangela Rennó

 

Nosso mundo atual tem cada vez mais dificuldade de esquecer. Vivemos uma espécie de obsessão pela memória, que é apontada por diversos autores e pode ser vista no desenvolvimento de mais centros de memória, arquivos digitais, aumento das memórias dos aparelhos tecnológicos, restauração e revitalização de centros históricos, produção de documentários, ampliação de museus e instituições, criação de mais ambientes para armazenar, gravar e catalogar.

 

Nesse mundo tecnológico, de abundância de imagens, vivemos uma nova forma de produzir e consumir memória. O alto número e a praticidade das câmeras móveis nos bolsos de todos acaba funcionando como um meio de se aumentar o armazenamento de lembranças passadas, assim como de diminuir a necessidade de se lembrar.

 

Fotografamos as coisas para expulsá-las do espírito. – Kafka

 

Ioana Mello, 2014

Um estudo americano da Universidade de Fairfield, demonstrou que as pessoas que observam antes de fotografar se lembram melhor dos detalhes do objeto fotografado uns dias depois. A conclusão do estudo foi que fotografar ajuda a memória mas apenas se a pessoa parou para olhar além da imagem e desenvolveu uma interação com o objeto fotografado ou a cena em questão. Caso contrário, a pessoa esquece mais facilmente. Linda Henkel, chefe do estudo, aponta para o paradoxo da questão: com o enorme número de fotos digitais disponíveis, e seu espaço de armazenamento, temos mais meios para ajudar a memória, mas acabamos com uma certa preguiça em acessar as lembranças ligadas a essas imagens, e esquecemos. Não adianta mecanicamente registrar um enorme número de imagens de viagens, museus, pessoas e jantares: para lembrar, é preciso estar presente.

 

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Fotografia, memória e documento

Semana passada falamos sobre o ato de lembrar, e a construção de uma história comum através da documentação de uma memória. Gostaria de permanecer nesse tema, e discutir mais o papel da fotografia na preservação de nossa memória.

 

Que a fotografia salve do esquecimento as ruínas decadentes, os livros, as estampas e os manuscritos que o tempo devora, as coisas preciosas cuja forma irá desaparecer e que pedem um lugar no arquivo de nossa memória. – Baudelaire, 1959

 

Eugene Atget, Cour, 41 rue Broca, 1912

 

A fotografia, como já discutido aqui, tem uma forte relação com o documental. Dizem que através da foto, a memória do passado estará aprisionada na imagem, nos possibilitando relembrar para sempre, cada vez que nosso olhar cruzar a imagem em questão.  Mas no fundo, esse memória fotográfica não é tão objetiva assim.

 

Freud fala da memória como essencial ao processo psicanalítico. Resumidamente, a memória para ele se organiza por superposição de camadas, como em um processo de estratificação, onde a nova memória não apaga a outra mas se sobrepõe. Assim, nossas memórias seriam múltiplas, em constante transformação através das novas experiências que vivemos, dos relatos que ouvimos ou imagens que vemos. Nós teríamos uma capacidade ilimitada de receber novas percepções, e como um bloco mágico, histórias presentes se inscrevem por cima de fatos passados.

 

Alfred Eisenstaedt, 1945

 

A fotografia aparece como uma memória passada no tempo presente, um resgate. Porém enquanto documento de uma lembrança passada, ela não é um detalhe objetivo. Muito pelo contrário, ela é um diálogo entre o nosso olhar presente, alterado de lembranças superpostas, e a imagem passada.

 

Diante da imagem, o sujeito não olha apenas para o mundo, mas também olha para si mesmo. O olhar não vai unicamente em uma direção: ele passa pela superfície e, em seguida, atravessa de volta para o sujeito. Ele vai do passado para o presente e vice versa. – Camille Bonnefoi

 

Vulgo, Rosângela Rennó, 1998

 

A FOTOGRAFIA NÃO ATESTA NADA E ATESTA TUDO.

 

A fotografia enquanto documento de um passado não é verdade única. Como já vimos antes, o olhar, do fotógrafo e do observador, nunca é inocente!

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Sobre a importância de se lembrar

Todos recordam: de viagens, rostos, conversas, risos, brindes, passagens da infância, trechos de conversas, aulas da faculdade, discursos, fatos… O ser humano tem essa capacidade cognitiva de lembrar. E essas memórias, individual e coletiva, se relacionam para criar uma narrativa, uma história comum.

 

Essa história é importante para construirmos uma identidade pessoal e social dentro de uma comunidade comum, seja ela a família, a cidade, o país… Sem o ato de lembrar, deixamos de ter uma história, e com isso perdemos a base, nos esquecendo de quem fomos, somos e queremos ser. A memória é primordial para a nossa duração, sendo condição para apreender e adaptar-se no mundo. Através da memória temos acesso a como percebemos a realidade e a interpretamos.

 

LEMBRAR ALTERA NOSSA PRECEPÇÃO DO MUNDO E DO EU.

 

Labhoi, Coleção Carnavais de Rua de Niterói

 

Nesse processo de lembrar para criar uma história e sentido à vida, existem vários centros de memória, com documentos e arquivos – visuais, orais e textuais – de pessoas e eventos que marcaram algum momento.

 

Todo documento não é prova irrefutável de alguma coisa, mas vestígio de algo que se quis legar à posteridade. – Gabrielle da Costa

 

Entre tantos centros de memória, temos o LABHOI. Ligado a Universidade Federal Fluminense, mas aberto a todos os pesquisadores, esse laboratório da história oral e da imagem se propõe a ser um centro de referência na história da imagem. Através de uma investigação, um diálogo e uma abordagem crítica, o laboratório quer discutir as várias vertentes da imagem: documento e arte, diferentes técnicas como o cinema, video, fotografia e cartografia, a imagem e sociedade, a história da imagem… O laboratório tenta ser mais do que apenas um centro depositário de memória, sendo também um centro de estudo e debate.

 

Estudar história da imagem significa tomar o olhar como objeto da investigação histórica. O olhar nunca é inocente!

 

Labhoi, Coleção de Imagens Acervo Agudás (por Milton Guran), Celebração de N. S. Bonfim em Porto Novo, Rep. do Benim

 

O laboratório disponibiliza artigos, publicações, entrevistas com grandes fotógrafos brasileiros, estudos e imagens. Isso ajuda a manter aberto as possibilidades de lembrar, com o adendo de um debate inteligente e agregador.

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Fotografia, luz e morte

A fotografia sempre dialogou com a morte, pelo seu estreitamento com o tempo, com a memória e com o passado.  Existe uma história que conta que muitos indígenas acreditavam que o aparelho fotográfico aprisionava a alma da pessoa fotografada, de uma certa maneira, matando sua essência.

 

A fotografia, desde o tempo das lanternas mágicas passando pela câmera obscura, utiliza um aparelho que aproxima o científico do mágico ao introduzir, sempre (através da técnica), luz na escuridão. Ao trabalhar com a luz como essência, o impulso fotográfico estreita sua ligação com o sagrado. O teórico americano Kerry Brougher reforça essa idéia ao lembrar que o homem tenta eternamente iluminar a escuridão, desde o mito da caverna de Platão, numa tentativa de talvez superar as restrições do tempo, do espaço, da memória e até mesmo da morte.

 

Como dizia Roland Barthes, “(…) a fotografia tem alguma coisa a ver com a ressurreição (…).” BARTHES, 1984.

 

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Fotografamos eventos, pessoas, memórias com o intuito de imortalizá-los e superar a morte daquele objeto fotografado. Guardamos álbuns, porta retratos e cortiças para voltar àquele momento querido sempre que nossos olhos cruzam a imagem. Por outro lado, aquela imagem que queremos imortalizar, no fundo morreu. Morreu na hora que disparamos o flash. Morreu porque não somos mais os mesmos, a paisagem mudou, a vida se transformou, a emoção acabou. A alma foi aprisionada.

 

Como tanto sabemos, a fotografia é considerada a mídia do instantâneo por excelência. Ela jamais deixou de ser pensada pela problemática do tempo. No senso geral, a fotografia é tida como a mumificação do tempo: “de um tempo evolutivo a um tempo petrificado, do movimento à imobilidade, do mundo dos vivos ao reino dos mortos, da luz às trevas, da carne à pedra” DUBOIS, 1993. No entanto, a fotografia não é tão preta e branca assim, existe em seus muitos tons de cinza. Na fotografia há muitas sombras entre a luz e as trevas, entre o reino dos vivos e dos mortos, mas “se não fosse pelas sombras, não haveria beleza” TANIZAKI, 2006. A fotografia não está atrelada tão diretamente ao tempo morto ou objeto morto, ela não imobiliza o instante, ou se encerra em um único olhar, existem muitos caminhos a serem percorridos, detalhes a serem delineados.

 

Além disso, a fotografia tem o privilégio de reavivar, com particular vigor, lembranças esquecidas nas nossas mentes, perdidas e enterradas. Ao ressuscitar essas lembranças, pela luz e pelo olhar, a fotografia nos leva a refletir sobre esse passado “aprisionado” na imagem a partir de outros horizontes vivênciais adquiridos no meio tempo, e que se prolongam no presente para um futuro.

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