Outros discursos: imagens de dentro da Coréia do Norte

Já comentei em alguns posts anteriores dos perigos de uma história única. Inclusive, já compartilhei o link da palestra TED da escritora Chimamanda Ngozi Adichie sobre a importância de se dar voz a outras culturas, outros povos, outros cotidianos, outras histórias. Só assim poderemos conhecer o outro e ver que não somos tão diferentes, possibilitando uma certa empatia e aproximação. E com isso, diminuindo a ignorância e o medo.

 

A fotografia, com imagens do cotidiano do mundo, pode ser uma ferramenta incrível de aproximação e divulgação de outras histórias. Sobretudo quando feita de dentro, sem clichês e estereótipos.

 

Nesse contexto, descobri através da revista Zum, o trabalho do fotógrafo David Guttenfelder. Fotojornalista, ganhador de vários prêmios como o World Press Photo Award e o ICP Infinity Prize, partidário da fotografia captada pelos celulares e mídias socias, David criou um projeto para aproximar a Coréia do Norte do resto do mundo. Através da conta instagram Everyday DPRK, fotógrafos locais e estrangeiros com acesso ao fechado país da Coréia do Norte podem divulgar o cotidiano e a cultura de um lugar longínquo e quase mítico para a maioria das pessoas.  

 

 

São diferentes pratos de comida, colegiais indo estudar, uma sala de estar, um jovem frente ao computador, passantes, carros, detalhes de um cotidiano banal, mas interessante, de um país extremamente censurado ao leste da Ásia. A Coréia do Norte é oficialmente socialista, porém é mais conhecida por ser uni-partidária, extremamente militarizada, isolada, totalitarista, governada por políticos ditatoriais severos. Ou seja, um país de pouco acesso à maioria, tanto fisicamente, quanto por imagens e textos.

 

Everyday DPRK abre uma fresta para podermos observar pela porta de entrada e olhar outras verdades sobre a Coréia do Norte, outros discursos, outras histórias. É uma abertura na história única, oficial e muitas vezes censurada de um país trancado. É uma fenda para nos aproximarmos.

 

 

*todas as fotos do post são tiradas da conta instagram Everyday DPRK

 

 

 

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Aprimorando o olhar através do outro

 

Você não fotografa apenas com a câmera. Você traz com você todas as imagens que já viu. – Ansel Adams

 

O fotógrafo domina o uso das câmeras, lentes e os programas digitais como o photoshop, bem como as técnicas de iluminação, enquadramento e direção para captar a melhor imagem possível. Mas nada disso é possível (ou será bem feito) sem observar outros olhares. Ou seja, olhar através das imagens de outros fotógrafos.

 

Praia, Tríptico, nº 25, Alair de Oliveira Gomes, 1985

 

Nos dias de hoje, essa questão perpassa a todos. Pois não apenas os fotógrafos lidam com imagens; tirar, ver e compartilhar fotos já virou rotina para a maioria da população. São milhares de imagens nos bombardeando a todo momento. Mas nem sempre nos damos conta da complexa construção de uma imagem.

 

O poder da fotografia é muito mais complicado do que gostaríamos de admitir. – Marvin Heiferman

 

Então fica a dica, não perder aquela super exposição na sua cidade, com muitas imagens, e explicações sobre o fotógrafo. Passar na galeria perto da sua casa para discutir um pouco com outras pessoas. Mas vamos sair do óbvio. Que tal uma dica para adentrar outras imagens sem sair de casa?

 

O Google entrou no mundo da arte em 2011 com o Google Arts and Culture. A ideia é ser uma plataforma gratuita com imagens de obras de arte em alta resolução, onde as pessoas podem acessar livremente diversos acervos de seus vários parceiros pelo mundo: Tate, MOMA, Met, o nosso Museu do Amanhã, Getty’s Image… são mais de 150 museus em 40 cidades ao redor do mundo que aderiram a plataforma.

 

A câmera do Google Art reproduz imagens de mais de um bilhão de pixels! Com isso, você pode “zoomar” nas imagens vendo detalhes incríveis e de uma maneira diferente da formalidade do museu. As possibilidades de pesquisa são múltiplas, você pode pesquisar por fotógrafos específicos, acervos, imagens de acordo com cor ou tempo, fazer tours virtuais em diversas línguas, além disso, existem exposições pensadas exclusivamente para a espaço virtual. E com as imagens, a plataforma ainda mescla som, vídeo, texto, google street view… É uma enorme ação que engloba o mundo inteiro, aumenta e democratiza o acesso a arte, atrai novos públicos, complementa a visita real ao museu ou galeria e amplia as oportunidades de pesquisa, entendimento da imagem e o potencial de educação.

 

Detalhe da foto de Reg Lancaster, Paris, 1968
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Imagem e Vaidade

Como vocês podem ver, resolvi entrar no mundo da internet. Na verdade já entrei antes, incursões rápidas, tímidas, que tinham em comum a falta de habilidade e de tempo para realmente me envolver nesse universo virtual. Resultado: blogs esquecidos em algum lugar não palpável dessa grande rede.

Não sei se agora será diferente (espero que sim) mas acredito que nos últimos anos acumulei um bom conhecimento sobre fotografia que pode render bons textos. Resumindo, estou mais narcisista.

 

UMA CERTA DOSE DE VAIDADE É NECESSÁRIA PARA O MUNDO VIRTUAL.

 

Seja no blog, no facebook, no instagram ou no youtube, qualquer novo post – de vídeo, imagem ou texto – passa pelo lado pessoal e pela (nossa) vaidade. Como o mito grego de Narciso somos atraídos pelo reflexo da nossa própria imagem e nos apaixonamos por nós mesmos. Nessa era tecnológica, de tempo rápido ligado ao instante, o próprio mecanismo do celular e das redes sociais induzem a um certo exibicionismo. É como se a sociedade tecnológica, de certa forma, já estivesse incentivando nossas vaidades. E um encaixe exato se forma, como são os encaixes narcísicos.

 

MAS TUDO TEM UM LIMITE.

 

Ter vaidade, querer dar algum recado, mostrar algo interessante para o mundo é ótimo e graças a esse exibicionismo encontramos inúmeros blogs curiosos, fotos diferentes, ideias surpreendentes compartilhadas. Encontramos também os autorretratos, ou selfies, que acredito terem um lado positivo, sendo desconstruções de nós mesmos e uma maneira de nos reconhecermos na massa cibernética: de dialogar.

Mas e o exagero. Narciso não estava interessado em divulgar sua imagem, se apaixonou por ele mesmo e se bastava. No mundo da imagem virtual não nos bastamos, precisamos da aprovação dos outros. Queremos mais curtidas, mais comentários e muita circulação do nosso post. A originalidade da imagem é menos importante que as suas qualidades genéricas cheias de modismos que darão o aval para um maior compartilhamento. A professora Jodi Dean usa o termo “valor de circulação” de uma imagem, onde a repetição e a imitação são valores mais importantes que a expressão e a análise.

 

A IMAGEM PERDE SEU VALOR E SE ESGOTA EM SI MESMA.

 

O sociólogo polonês Zigmunt Bauman acredita que o presente é o que seduz, é o que é acessível para a nossa sociedade ávida por consumo, por informação e por novidades. Vivemos dependentes dos estímulos externos, sempre atentos a preencher o tempo com imagens, sons, opiniões e sensações. Há uma perda do significado da imagem pois o processo de fotografar começa e termina numa imitação rápida e desinteressada. Nossa era tem uma tendência em destruir qualquer vestígio de tempo interior e de possíveis contribuições da subjetividade, perdemos a capacidade de nos encarar e de nos esvaziar. Com isso, não é fácil acessarmos a intuição e assim atingirmos uma liberdade criadora.

 

FOTOGRAFE, ESCREVA, PARTICIPE DA INTERNET COM CRIATIVIDADE.

 

Participar da internet faz parte do nosso mundo atual. Inclusive, ter a oportunidade de circular novas ideias e imagens numa escala global é uma dádiva dessa nossa era. Temos que ser vaidosos ao ponto de acreditarmos que o que vamos compartilhar fará uma diferença. Mas vamos combinar, não se prenda ao sucesso ou fracasso do número de curtidas e comentários. Eu aqui já confessei meu exibicionismo, mas prometo focar na criatividade dos posts, sem querer provar nada para ninguém, apenas como uma maneira de diminuir o isolamento e aumentar o diálogo sobre a imagem e suas diferentes conotações.

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