Vamos falar sobre mulheres e a imagem?

Durante o mês de junho, o Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro, está com uma programação bem interessante de debates sobre as mulheres e a imagem. Mais do que interessante, uma discussão necessária!

Já rolaram três mesas até a publicação desse post. Dentre elas, uma sobre o processo de criação e identidade da YVY- mulheres da imagem, em que fui mediadora. Não sou uma pessoa muito politizada, ou melhor, sou muito politizada, mas nunca consegui sentir o lado mais espiritual da política. Sinto na arte, e na fotografia, e acredito que com a arte podemos melhorar o mundo, e ajudar a democratização.

 

Nova logo – YvY, mulheres da imagem

 

A mesa que participei foi bastante interessante, por vários motivos. Normalmente, em debates ouvimos mais sobre o resultado e menos sobre o processo. Essa mesa foi muito cativante pois focou no processo de criação, de organização, nos propósitos em discussão, as dificuldades e os anseios em pauta. Através de inúmeros depoimentos de mulheres presentes me surpreendi e me envolvi na busca por algo maior, por um sonho ideal e coletivo de igualdade e justiça. Pela primeira vez, entendi a política como um caminho também espiritual.

 

Um sonho? Sim. Mas que elas estão trabalhando muito para tornar uma prática. Vamos nos juntar?

 

Os três pontos que mais me chamaram atenção foram:

  1. uma organização horizontal. Diferente da organização vertical tão difundida na sociedade patriarcal, porque não tentar uma outra alternativa mais igualitária e criativa.
  2. o discurso pela representatividade. Apesar da mesa em questão não ter muita representatividade, o projeto quer e procura mais representatividade de mulheres, e pessoas que se identificam enquanto mulheres, de todo o Brasil.
  3. A arte como arma de luta coletiva através da melhor arma que temos: a imagem.

 

Mais informações sobre ações e encontros da YVY – mulheres da imagem no facebook.

Abaixo a programação completa do ciclo de debates do FotoRio, Mulher em Foto:

Cada mesa acontece de 17 às 19h, no Centro Cultural dos Correios, Rio de Janeiro.

 08/06: Fotógrafas brasileiras na foto de 6 Nov 2016 – com Andreas Farias, Bruna Prado, Luciana Macedo, Simone Marinho e Wania Corredo – Mediação: Marcella Marer.

09/06: YVY – Mulheres da Imagem – Organização: Marizilda Cruppe, com Bárbara Cunha (PE), Claudia Ferreira (RJ), Flávia Correia (AL), Isabella Lanave (PR) e Maíra Cabral (MG) – Mediação: Ioana Mello.

10/06 – Débora 70 – “Trajetória” e Fernanda Chemale – “Rastros d’Eus” – projeção com debate – Mediação: Cristina Zappa.

13/06: Fotógrafas Pretas – com Fernanda Dias, Lita Cerqueira e Valda Nogueira (Imagens do Povo) – Mediação: Thaís Rocha.

20/06: Mulher, fotografia e história – com Maria do Carmo Rainho, Thereza Bandeira de Mello e Mariana Muaze – Mediação: Silvana Louzada.

22/06: Fotografia pública e as mulheres – Ana Maria Mauad (LABHOI / UFF)

27/06: Fotógrafa: Rua, Polícia e Comunidade – com Jussara Paixão (fotógrafa da Polícia Civil), Márcia Foletto (O Globo), Thaís Alvarenga (Coletivo Negras[fotos]grafias) – Mediação: Silvana Louzada.

29/06: Relato de Experiência com Claudia Ferreira – fotógrafa, autora dos livros: Mulheres em Movimento e Marcha das Margaridas.

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Será que somos o que comemos? Venha olhar mais de perto nosso alimento

Diz-me o que comes; eu te direi quem és. –  Anthelme Brillat Savarain

 

Um casal resolveu pesquisar essa frase mais profundamente e fotografou o nosso alimento cotidiano, resultando no livro fotográfico: Planeta Faminto – O que o Mundo Come. O fotojornalista americano Peter Menzel e a escritora Faith D’Aluisio retrataram famílias de todos os cantos do mundo com seus respectivos alimentos. Foram 36 famílias fotografadas ao redor de suas mesas, com tudo aquilo que costumam comer no período de uma semana. Para quem viaja e já quer logo experimentar a comida local, o resultado é extremamente interessante, provando que o alimento é cultural. Mais do que isso, as imagens abrem outras questões pertinentes: as diferenças econômicas que aparecem em cada mesa, os nossos hábitos de consumo saudáveis ou não, a sustentabilidade na alimentação…

 

EUA

 

Alemanha

 

Australia

 

Cuba

 

É interessante notar que países industrializados e mais ricos tendem a consumir menos frutas e vegetais, e mais congelados. Ou como alguns países tem uma proximidade maior com a agricultura e com isso consomem mais produtos da terra, sendo mais saudável. As análises são inúmeras e curiosas.

 

Sem querer dar respostas, ou mostrar verdades, a dupla levanta essas questões que valem a pena serem analisadas e pensadas. O ensaio também faz um estudo das mudanças pela qual passou a alimentação mundial impulsionada pela globalização, pelo turismo e pelo agronegócio. Será que com a concentração da indústria alimentícia na mão das mesmas grandes empresas ainda comemos tão diversificadamente assim?

 

Nos observando ao redor da mesa, hábito tão normal e simples em todas as culturas, perpassamos conceitos e questões como distribuição da riqueza, estereótipos, racismo, ecologia, saúde, consumo e nossa relação diante do outro. Da maneira como o livro foi fotografado, no estilo álbum de família, com todos os membros posando em suas cozinhas ou salas de jantar, assim como os alimentos,  não vejo um posicionamento objetivo do fotógrafo diante das perguntas que surgem. Mas é notável que suas imagens explicitam problemas extremamente contemporâneos da nossa sociedade.

 

*A dupla escreveu inúmeros livros juntos sobre hábitos alimentares. Hungry Planet: What the World Eats (Material World Books, Ten Speed Press, 2005

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O objeto de desejo, fotografia e psicanálise

Descobri o livro A invenção da Vida – arte e psicanálise depois dele estar esgotado. Foi meu objeto de desejo por um certo tempo, até ganha-lo se presente de uma amiga psicanalista.

 

A vida não existe, ela tem que ser inventada. (…) Os artistas através de sua arte transformam as dificuldades e o absurdo da existência em representações com as quais o homem pode conviver. -Edson de Souza, Elida Tessler, Abrão Slavutzky

 

Prayer, Man Ray, 1930

 

Laurence Demaison, Mercure No. 10, 2003

 

O livro discorre sobre pintura, poesia, fotografia, criação, criatividade, aproximando as teorias artísticas e psicanalíticas, em um diálogo enriquecedor. 16 autores, dentre eles artistas plásticos e psicanalíticos, atuantes no Brasil e no mundo, discorrem sobre temas ligados à arte e à psicanálise em pequenos artigos. Sobre fotografia temos, por exemplo, uma entrevista com o fotógrafo esloveno Evgen Bavcar. O interessante dessa entrevista é que Egven é cego. E é sobre imagens que vão além do visual que a entrevista discute. Afinal, um fotógrafo cego não está tão preso ao real da fotografia quanto um fotógrafo que enxerga. Egven acaba fotografando mais ideias e conceitos, sem recortar um pedaço do presente, do que está diante dele, pois diante dele há apenas escuridão visual.

 

Todo esse post é para apresentar minha nova coluna Infinito Instante no blog da livraria e editora de psicanálise Subversos. Uma vez por mês apresentarei um fotógrafo diferente, suas fotos e conceitos. Esse mês é sobre Hiroshi Sugimoto e suas imagens que, um pouco como Egven Bavcar, falam mais de ideias do que de realidade. Depois de 1 ano de Photolimits, expandimos nossos limites, desdobramos sem limites, comprovando os tantos discursos possíveis na fotografia.

 

A invenção da vida, arte e psicanálise. Org. Slavutzky, Abrão; Souza, Edson de; Tessler, Elida. Editora Artes e Ofícios, Porto Alegre, 2001.

 

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Recordar é viver

 

Uma grata surpresa caiu nas minhas mãos esse início de ano: o livro “O sal da terra – fotografias da Região dos Lagos de 1930/ 1970” de Wolney Teixeira, organizado por Mauro Trindade. Ganhar presentes de pessoas inesperadas é sempre uma grata surpresa, ainda mais sendo um livro de fotografia. O cúmulo da alegria foi constatar que esse livro fala da região onde passei a infância: as salinas da Região dos Lagos.

 

 

Com avô e tio ligados à produção de sal, cresci correndo nas colinas brancas e brincando com meus primos nos pátios da refinaria. Mas a produção de sal na Região dos Lagos lida com muito mais do que as minhas memórias gostosas de criança, lida com a história e o desenvolvimento de uma importante região, documentada por poucos.

 

Wolney Teixeira de Souza foi o primeiro e, durante muito tempo, o único fotógrafo de Cabo Frio e de grande parte do seu entorno. – João Henrique de Oliveira

 

Wolney Teixeira nasceu em 1912 no Rio, com dez anos se mudou para Cabo Frio e lá ficou. Filho de fotógrafo, começou a carreira usando o equipamento antigo do pai para sobreviver. Fez de tudo, entre encomendas fotográficas dos salineiros a retratos 3×4 para documentos oficiais. Ao longo de sua carreira fotografou as belezas geográficas da região – Arraial do Cabo, Búzios, Macaé – fez retratos lindíssimos da população, registrou eventos políticos e sociais – comícios, shows, festas, casamentos – da cidade de Cabo Frio, e muito de seu desenvolvimento urbano e de suas paisagens de sal. O fotógrafo deixou mais de 10 mil negativos.

 

Graças à preservação de seus negativos, e do projeto de livro e exposição em 2011, hoje temos acesso à uma memória coletiva importante. E eu, as minhas alegres memórias pessoais.

 

    

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Terminando o ano com muita provocação

Eu fotografo com o único objetivo de apreender a tensão que existe entre os objetos e eu, me servindo do aparelho – a máquina ótica – como um mediador. – Koji Enokura

 

Terminemos o ano falando da revista japonesa Provoke, que teve apenas 3 números publicados, entre os anos de 1968 e 1969, mas que hoje é tida como uma ação importante na história da fotografia. Híbrido de revista, movimento, pensamento, provocação e atitude, Provoke era um coletivo de fotógrafos, poetas e teóricos que surgiram nos tumultos dos anos 60 para pensar a fotografia. Mais do que isso, contestar a fotografia, e seu poder de representação.

 

 

ARTE É IDEOLOGIA. ARTE É POLÍTICA.

 

 

Shomei Tomatsu, 1964

 

Não é novidade para ninguém que os anos 60 e 70 foram de grandes mudanças no Japão: culturais, sociais e políticas. Depois de derrotado e devastado durante a Segunda Guerra Mundial, o país sofreu uma rápida transformação estrutural (se aliando aos EUA) resultando em uma nação industrializada, ligada aos melhores avanços tecnológicos e extremamente rica. Com isso, os antigos valores foram vencidos pela ode ao consumismo e grande parte da população esqueceu suas tradições. Isso acarretou uma onda de protestos entre agricultores, trabalhadores e estudantes. No meio dessa efervescência, surgem as imagens em preto e branco, de alto contraste, granuladas e muitas vezes fora de foco do Provoke.  Não como um estilo em si mas como uma linguagem que procurava, indagava e protestava.

 

Os membros da Provoke, como Yutaka Takanashi, Daido Moriyama, Koji Taki, Takuma Nakahira, queriam uma captura genuína do mundo, do que está aí, e não uma confirmação de uma visão desse mundo. São fotografias fragmentadas, explosivas, subjetivas de uma experiência de mundo, sem querer transcrever e apreender a complexidade da realidade.

 

Devemos nos tornar “videntes” para atingir alguma coisa que se situa antes da forma. – Koji Taki

 

Essa linguagem fluída e confusa, que privilegia o absurdo e o caos, nos obriga a desorganizar o olhar.  E o pensamento. E essa é o único olhar possível nessa sociedade de repetição, de consumo fetichista, de instrumentalização da arte e de imagens mediáticas, estéticas e auto explicativas. Qual o papel do fotógrafo? E da fotografia? E do cidadão? E aqui não sei se falo do Japão dos anos 60 ou do Brasil e do mundo do novo ano de 2017.

 

Sem ter respostas prontas, a Provoke provocou perguntas, protestos, quebras e resistência.

 

© Eikoh Hosoe, Kamaitachi #31, 1968

 

No processo de resgate dessa história, um livro e uma exposição foram montadas em cima do movimento Provoke. A exposição estára no Art Institute of Chicago, de 28 de janeiro a 7 de maio de 2017.

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