O objeto de desejo, fotografia e psicanálise

Descobri o livro A invenção da Vida – arte e psicanálise depois dele estar esgotado. Foi meu objeto de desejo por um certo tempo, até ganha-lo se presente de uma amiga psicanalista.

 

A vida não existe, ela tem que ser inventada. (…) Os artistas através de sua arte transformam as dificuldades e o absurdo da existência em representações com as quais o homem pode conviver. -Edson de Souza, Elida Tessler, Abrão Slavutzky

 

Prayer, Man Ray, 1930

 

Laurence Demaison, Mercure No. 10, 2003

 

O livro discorre sobre pintura, poesia, fotografia, criação, criatividade, aproximando as teorias artísticas e psicanalíticas, em um diálogo enriquecedor. 16 autores, dentre eles artistas plásticos e psicanalíticos, atuantes no Brasil e no mundo, discorrem sobre temas ligados à arte e à psicanálise em pequenos artigos. Sobre fotografia temos, por exemplo, uma entrevista com o fotógrafo esloveno Evgen Bavcar. O interessante dessa entrevista é que Egven é cego. E é sobre imagens que vão além do visual que a entrevista discute. Afinal, um fotógrafo cego não está tão preso ao real da fotografia quanto um fotógrafo que enxerga. Egven acaba fotografando mais ideias e conceitos, sem recortar um pedaço do presente, do que está diante dele, pois diante dele há apenas escuridão visual.

 

Todo esse post é para apresentar minha nova coluna Infinito Instante no blog da livraria e editora de psicanálise Subversos. Uma vez por mês apresentarei um fotógrafo diferente, suas fotos e conceitos. Esse mês é sobre Hiroshi Sugimoto e suas imagens que, um pouco como Egven Bavcar, falam mais de ideias do que de realidade. Depois de 1 ano de Photolimits, expandimos nossos limites, desdobramos sem limites, comprovando os tantos discursos possíveis na fotografia.

 

A invenção da vida, arte e psicanálise. Org. Slavutzky, Abrão; Souza, Edson de; Tessler, Elida. Editora Artes e Ofícios, Porto Alegre, 2001.

 

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A fotografia rompendo muros e barreiras

Hoje existem 63 muros [fronteiriços] no mundo. Em 1989, quando o Muro de Berlim caiu, havia 15 – então podemos dizer que a sociedade moderna está construindo muros entre as nações. – Alessandro Grassani

 

Lembro da festa mediática e da minha festa pessoal quando o Muro de Berlim foi posto a baixo. Lembro das aulas de história e geopolítica também, que falavam dos horrores desse muro e de tantos outros que na minha cabeça tinham ficado no passado das páginas dos livros. E assim, ingenuamente, me espantei em saber o quanto ainda temos (e aumentamos) de barreiras físicas e visíveis. Mesmo que ao observar em torno seja óbvio as inúmeras barreiras invisíveis.

 

O fotógrafo italiano, Alessandro Grassani, resolveu iniciar um projeto fotografando os muros ao redor do mundo: A wall in between. Através dos obstáculos visíveis, ele quer escancarar o invisível: como o medo, a incompreensão e o ódio. Usar a imagem do muro para escancarar os diversos tipos de muros. E assim, reconhecer uma situação para juntos pensarmos numa saída. Sair dessa ignorância com fatos e fotos, ajudar a sensibilizar a sociedade e quem sabe diminuir as incertezas, os medos e os tijolos.

 

Alessandro Grassani, A wall in between, Mexico – US, 2016

 

Não é a toa que o projeto anterior de Alessandro foi sobre os migrantes ambientais – Environmental migrants: the last illusion . Um fenômeno mais recente que os imigrantes políticos, mas não menos sério, e que também lida com barreiras. São projetos que se cruzam o tempo todo. Pessoas deslocadas, sem voz, sem imagem, não reconhecidas, barradas, que passam por diversos obstáculos visíveis e invisíveis. O fotógrafo quer dar uma voz ao que não é falado. E uma imagem ao que se escolhe não ver.

 

A. Grassani, Environmental migrants: the last illusion, Mongolia, 2011

 

A. Grassani, Environmental migrants: the last illusion, Bangladesh, 2011

 

Alessandro trabalha com projetos longos, mergulhando em questões humanas e criando oportunidades de outras histórias serem contadas. Nada mais importante que diversificar os discursos, os pontos de vistas, as histórias. Só assim a gente passa a entender o outro, pois os pré conceitos são dispersados, e passamos a realmente conhecer o outro, descobrindo que somos todos humanos em nossas diferenças e que não precisamos de muros.

 

Uma utopia? Talvez. Mas uma coisa é certa, o mundo pode ser incerto e a vida caótica, mas não serão mais muros que irão melhorar essa sensação, muito pelo contrário, irão apenas reforça-las.

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Recordar é viver

 

Uma grata surpresa caiu nas minhas mãos esse início de ano: o livro “O sal da terra – fotografias da Região dos Lagos de 1930/ 1970” de Wolney Teixeira, organizado por Mauro Trindade. Ganhar presentes de pessoas inesperadas é sempre uma grata surpresa, ainda mais sendo um livro de fotografia. O cúmulo da alegria foi constatar que esse livro fala da região onde passei a infância: as salinas da Região dos Lagos.

 

 

Com avô e tio ligados à produção de sal, cresci correndo nas colinas brancas e brincando com meus primos nos pátios da refinaria. Mas a produção de sal na Região dos Lagos lida com muito mais do que as minhas memórias gostosas de criança, lida com a história e o desenvolvimento de uma importante região, documentada por poucos.

 

Wolney Teixeira de Souza foi o primeiro e, durante muito tempo, o único fotógrafo de Cabo Frio e de grande parte do seu entorno. – João Henrique de Oliveira

 

Wolney Teixeira nasceu em 1912 no Rio, com dez anos se mudou para Cabo Frio e lá ficou. Filho de fotógrafo, começou a carreira usando o equipamento antigo do pai para sobreviver. Fez de tudo, entre encomendas fotográficas dos salineiros a retratos 3×4 para documentos oficiais. Ao longo de sua carreira fotografou as belezas geográficas da região – Arraial do Cabo, Búzios, Macaé – fez retratos lindíssimos da população, registrou eventos políticos e sociais – comícios, shows, festas, casamentos – da cidade de Cabo Frio, e muito de seu desenvolvimento urbano e de suas paisagens de sal. O fotógrafo deixou mais de 10 mil negativos.

 

Graças à preservação de seus negativos, e do projeto de livro e exposição em 2011, hoje temos acesso à uma memória coletiva importante. E eu, as minhas alegres memórias pessoais.

 

    

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Um brinde a nós, com champagne e fotografia.

Fim de ano chegando, festas, amigos, familiares e brindes, muitos brindes, para renovar a esperança e as energias. E nada melhor que brindar com espumante e champagne. Ainda mais quando conseguimos junta-los com a fotografia.

 

 

Restrita a uma pequena região na França, o champagne movimenta em torno de 3 bilhões de euros por ano vendendo a idéia de luxo e celebração. Mas antes de tudo o champagne é um vinho excepcional, de caráter e com propriedades complexas que misturam frescor e tradição. A produção do champagne é uma forma de arte que foi desenvolvida ao longo de séculos através de várias gerações de especialistas. Hoje, sua produção é regulamentada e conta com regras pré-estabelecidas que delimitam desde os tipos de uva a serem usados até o método de fermentação.

 

 

Só bebo Champagne quando estou feliz e quando estou triste. Ás vezes, bebo quando estou sozinha. Quando estou em companhia, considero obrigatório. Bebo um golinho se não estou com fome e bebo quando estou com fome. Caso contrário nunca toco nele, a não ser que esteja com sede. – Lily Bollinger

 

 

 

Famoso por seu gosto efervescente, as borbulhas do champagne nos lembram grandes celebrações. Agora, graças aos avançados instrumentos científicos, dois pesquisadores foram mais longe e resolveram estudar o movimento das bolhas de uma taça de champagne. E um novo mundo se revelou. Cientificamente, o estudo vai além dos vinhos pois em menor escala se assemelha a fenômenos análogos ao da atmosfera e do oceano e pode ajudar em diversas áreas da ciência.

 

Mas para nós, o que importa aqui é a incrível parafernália que Gérard Liger-Belair e Guillaume Polidori desenvolveram para tirarem fotografias inéditas da dança desse vinho único.

 

 

Graças a uma abordagem inicialmente cientifica conseguimos descobrir muito sobre os processos sutis que dão a este vinho lendário um brilho ao olhar e um frescor à lingua. E, através de imagens lindas e intrigantes, também se revelou uma outra representação de uma bebida milenar.

 

Boas festas a todos! Saúde!

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A icônica exposição “Family of Man”

“Family of Man” foi uma exposição marcante apresentada no MOMA em 1955. Com curadoria de Edward Steichen, grande nome da história da fotografia e já citado aqui no nosso blog , essa exposição rodou mais de 37 países, 150 museus, por anos a fio, atraindo mais de 10 milhões de visitantes. Ainda hoje ela pode ser vista, imitando a montagem original, no Castelo de Clervaux, Luxemburgo, país natal de Steichen.

 

Mas o que essa exposição tem de tão impressionante?

 

A exposição focou nos traços comuns entre os homens: o que aproxima as diversas culturas e povos ao redor do mundo, em oposição ao afastamento e às diferenças atiçadas durante a Segunda Guerra Mundial. Essencialmente, a ideia era mostrar o que nos torna uma humanidade. No contexto do fim da guerra, e durante a guerra fria, as imagens formavam uma tentativa de suscitar uma ligação entre os homens, dilacerados pela agressiva luta global e ainda lidando com a ameaça constante das bombas atômicas. Através de imagens de gente como a gente, em todos os cantos do mundo, a exposição queria promover a paz.

 

Elliott Erwitt, 1953

 

 

Só existe um homem no mundo e seu nome é Todo Homem

Só existe uma mulher no mundo e seu nome é Toda Mulher

Só existe uma criança no mundo e o nome dessa criança é Toda criança.

– Carl Sandburg

A cenografia da exposição também foi inovadora para época, pensada por Paul Rudolph, instigava o visitante a ver as fotografias de maneira humanista. Divididas em temas iguais a todos – amor, nascimento, carreira, habitação, morte – as imagens contavam uma história única e comum a todos. Além disso, foram montadas de maneira a sair das paredes e entrar ativamente no percurso do público, com impressões grandes e variadas em tamanho formavam murais ao longo das paredes, sendo exibidas inclusive no teto.

 

 

Dorothea lange, 1936

 

 

A grandeza de “Family of Man” continua nos numerosos e famosos fotógrafos que participaram. A mostra conseguiu reunir 503 fotografias de 273 fotógrafos de 58 países, como Dorothea Lange, Ansel Adams, Diane Arbus, Richard Avedon, Hiroshi Hamaya, Robert Doisneau, Nora Dumas, Brassai,  Manuel Álvarez Bravo… Foram muitos olhares dialogando sobre diferentes situações e emoções cotidianas de todos os continentes. Apesar de em sua maioria serem dos EUA e Europa, os fotógrafos narram histórias da América, Oceania, África, Ásia e Europa.

 

 

 

A fotografia comunica igualmente para todos ao redor do mundo. É a única linguagem universal que nós temos, a única que não precisa de tradução. – Edward Steichen

 

Muitos críticos acharam a idéia de “Family of Man” bem intencionada mas ingênua: imagens pouco profundas que não acrescentaram ou mudaram realmente a humanidade. Imagens simplistas que não explicam o mundo complexo e contraditório em que vivemos. Verdade. Mas de alguma maneira foi uma tentativa de através da fotografia pensar novos caminhos e novas representações que nos englobem a todos.

 

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